Carta Apócrifa de Harry Gordon Selfridge a Roberto Santiago

Carta Apócrifa de Harry Gordon Selfridge a Roberto Santiago

Meu caro Roberto Santiago,

Escrevo-lhe através das margens difusas do tempo, como quem atravessa um salão vazio ao amanhecer e, ao ver a poeira carregada de luz dançando no ar, reconhece ali o sentido de toda a sua obra. Nós, que compreendemos o comércio para além das vendas, sabemos que não há muros entre épocas: apenas vitrines que se iluminam quando duas visões se encontram.

Acompanhei, com a curiosidade de quem já viu o mundo virar esquina, a forma como o senhor deu à sua João Pessoa algo que ela ainda não sabia que desejava. E essa é, permita-me dizer, a marca dos raros — daqueles cuja sensibilidade não se aprende, mas se encarna.

Quando abri minha loja em Oxford Street, em 1909, Londres acreditava que comércio era apenas troca. Eu sabia, desde os meus dias de Wisconsin até Chicago, que o cliente busca encantamento, não mercadoria. Transformei vitrines em palcos, departamentos em galerias, compras em experiência. A cidade, que não pedia nada, recebeu tudo. E, com o tempo, aprendeu a desejar mais.

Vejo que o senhor trilhou caminho diverso, mas guiado pelo mesmo instinto. Começou pequeno, como quase todo visionário, entre cheiros de café torrado e a coragem insistente dos loteamentos vendidos de porta em porta. Não herdou um mercado — ajudou a criá-lo. João Pessoa, ensolarada e discreta, ainda não imaginava a necessidade de um grande espaço de convivência. Mas o senhor imaginou. E ergueu o Manaíra Shopping não como conjunto de lojas, mas como um organismo vivo onde famílias se veem, jovens se encontram, pessoas constroem memória.

A isso chamo comércio como serviço público, não no sentido burocrático, mas no sentido humano — o mais nobre de todos. Quando um empreendimento oferece segurança, pertencimento, circulação, beleza e dignidade, ele transcende o caixa e se confunde com a alma da cidade. Foi assim com minha Selfridges. E é assim com o seu Manaíra.

Não me escapa, meu caro Roberto, que tal gesto exige coragem. Administradores cuidam do presente; visionários antecipam o futuro. O senhor, com o Mangabeira Shopping e todo o impacto irradiado à cidade, mostrou que compreende essa distinção profunda.

O comércio, quando bem pensado, torna-se praça, avenida, encontro, promessa. Torna-se futuro.

Hoje, de onde observo, percebo que o tempo — esse juiz severo — tratou igualmente bem nossos sonhos. A Selfridges permanece como uma das lojas mais admiradas do mundo, muito além de minha sombra. E o seu Manaíra Shopping, décadas depois, segue como referência não apenas comercial, mas social: um centro de convivência que redefiniu João Pessoa e moldou a identidade contemporânea da cidade.

Assim, escrevo-lhe não como mestre, nem como colega, mas como alguém que reconhece no outro a mesma chama: a intuição rara de que comércio não é transação, é relação. E que cidades florescem quando empresários acreditam nelas como se fossem parte da própria família.

Continue, Roberto, a plantar esse futuro. A cidade que acredita em seus visionários cresce — por dentro e por fora.

Com estima e admiração,
Harry Gordon Selfridge

Harry Gordon Selfridge (1858–1947) foi um empreendedor americano que revolucionou o varejo em Londres ao fundar a Selfridges, transformando o ato de comprar em um verdadeiro espetáculo. Visionário, introduziu vitrines artísticas, serviços inovadores e a ideia moderna da loja como espaço cultural.