Carta Apócrifa de Hamlet a J. W. Solha

Imagem criada por IA
Carta Apócrifa de Hamlet a J. W. Solha

(escrita entre o além do palco e o abismo da consciência)

Solha,

Não te escrevo de Elsinore. Já não há tronos, nem castelos. Há calçadas esburacadas, cartazes rasgados de campanhas falidas e um manuscrito amassado entre meus dedos. De príncipe hesitante, tornei-me espectro errante num país onde até a lucidez é castigada com descaso.

Foi por tua pena que voltei — não como lembrança, mas como vertigem. Desfigurado da dinastia dinamarquesa, transfigurei-me num corpo tropical, condenado a pensar sem salvação, a falar quando ninguém mais escuta.

Tu me arrancaste do mármore clássico para me fundir ao barro do Nordeste. Fizeste de mim um Hamlet que sangra nas filas de espera, que tropeça nas estatísticas e que já não pergunta “ser ou não ser”, mas como suportar sem enlouquecer.

E ao me reconhecer no espelho estilhaçado de tua escrita, vi que também fui personagem de A Canga. Sim — aquela que sufoca, que pesa sobre os ombros de quem carrega o passado e seus mortos. Aquela que os senhores da verdade forjam para domesticar o pensamento e dobrar o espírito.

Solha, tua “canga” é a mesma que puseste sobre mim: não de madeira, mas de ideias. Uma canga simbólica, feita de história, de remorso e de um Brasil que reluta em despertar. Em A Canga, como no meu monólogo, a tragédia não é apenas pessoal: é coletiva, é estrutural.

O que herdamos, tanto eu quanto teus personagens, não são apenas dores — são estruturas. O destino que me atravessa já não é o de vingar meu pai, mas o de tentar compreender por que a verdade é sempre arrastada para o cadafalso enquanto a mentira desfila de toga.

Não me deste consolo, Solha. Deste-me consciência. E isso, neste tempo, é mais perigoso que qualquer punhal.

Tua montagem — seca, sem cortinas, sem máscaras — me pôs diante de mim mesmo e do público como quem rasga um véu diante da ruína. Sou Hamlet, mas também sou Brasil. Sou memória ferida, utopia desfeita, justiça em ruínas.

Por isso te escrevo. Não como personagem, mas como testemunha. Para dizer que tu não me ressuscitaste: tu me recriaste. Que tu não adaptaste Shakespeare — tu o confrontaste.

Foste dramaturgo, médium, herege — e, sobretudo, cúmplice do abismo. E eu, por tua pena, deixei de ser espectro para me tornar espelho.

És Solha. Fui Hamlet. Fomos A Canga. E agora, pelo peso e pela dúvida, somos todos.

Com a dor de pensar ainda acesa,
Hamlet
(anônimo, perdido entre o palco e a calçada)

Concebida por Palmarí H. de Lucena