Carta Apócrifa de Gordon Parks ao fotografo paraibano Antonio David Diniz

Imagem concebida por IA
Carta Apócrifa de Gordon Parks ao fotografo paraibano Antonio David Diniz

Nova Iorque, nos interstícios do tempo

Meu caro Antonio David,

Escrevo-lhe após um encontro silencioso com suas imagens — desses que não se encerram no olhar, mas continuam reverberando por dentro, como uma memória que não vivemos, mas reconhecemos.

Ao me deparar com o seu trabalho, fui primeiro conduzido ao mar. Não como paisagem, mas como presença. Há, em suas imagens, uma cadência que não se impõe, mas se oferece. As linhas que a água desenha, o ritmo das ondas, a textura da areia — tudo parece existir em estado de escuta. E foi assim que permaneci diante delas: não como observador, mas como alguém que, por um instante, aprende a ver devagar.

Com o tempo, vieram também as imagens da terra. O sertão, o vaqueiro, o corpo em movimento contra a aspereza do mundo. E compreendi, então, que sua fotografia não se organiza por temas, mas por experiências sensíveis do existir. Se no mar você revela o tempo, no sertão você revela a resistência.

Na minha juventude, a câmera foi uma ferramenta de enfrentamento. Eu a utilizei para tornar visíveis as injustiças que insistiam em permanecer ocultas. Havia urgência naquele gesto — uma necessidade de interromper o silêncio e afirmar a presença daqueles que eram sistematicamente apagados.

Você, no entanto, se depara com outro desafio. Não mais o da invisibilidade, mas o do excesso. Um mundo saturado de imagens, de velocidade, de ruído. E, ainda assim, sua escolha é pela contenção. Sua fotografia não disputa atenção; ela a desacelera. Não grita; ela sustenta.

Nos vaqueiros que você revela, há uma dignidade que não se apresenta como espetáculo, mas como permanência. São corpos que atravessam a paisagem e, ao mesmo tempo, pertencem a ela. Há, nesse gesto, uma verdade que reconheço: a de que existir, muitas vezes, é resistir sem alarde.

Do mesmo modo, o mar que você fotografa não se oferece como cenário, mas como fluxo contínuo — algo que não se fixa, mas também não desaparece. Entre a água e a terra, entre o movimento e a permanência, você constrói um espaço de equilíbrio raro, onde o olhar pode repousar.

Se, em minha trajetória, a fotografia foi uma forma de denúncia, em seu trabalho ela se revela também como uma forma de permanência. Você não ignora as tensões do mundo, mas escolhe abordá-las por outro caminho — o da atenção, o da escuta, da delicadeza que não se confunde com fragilidade.

Há, em suas imagens, uma consciência do tempo. Na areia que guarda vestígios, no gesto contido do vaqueiro, na relação silenciosa entre homem e animal, tudo aponta para uma dimensão que ultrapassa o instante. Você não captura o momento; você o prolonga.

E isso, Antonio, é cada vez mais raro.

Vivemos em uma época que nos empurra para a pressa, que transforma o olhar em consumo e a imagem em superfície. Resistir a isso exige não apenas técnica, mas convicção. E é essa convicção que percebo em seu trabalho — uma fidelidade ao que ainda merece ser visto com atenção.

Por isso, permita-me lhe dizer: permaneça.
Permaneça nesse lugar onde a imagem não se esgota no imediato, onde o olhar ainda é capaz de se demorar, onde a fotografia não apenas mostra, mas sustenta.

Porque, no fim, é disso que se trata: não apenas de ver o mundo, mas de impedir que ele se torne invisível pela pressa.

Do seu,
Gordon Parks

Concebida por Palmarí H. de Lucena