Meu caro Antônio David,
Soube de sua exposição sobre o vaqueiro, esse homem moldado pela terra, pelo tempo e pela coragem. Vi ecos do meu próprio caminho no seu: a câmera em punho como um gesto de resistência, um instrumento para revelar a dignidade dos que raramente têm voz.
Você aprendeu a ver o mundo com o pai, entre imagens e silêncios de um interior esquecido. E agora retorna a esse mesmo chão, não como quem visita o passado, mas como quem o honra. Em suas fotografias, não há pressa, nem espetáculo — há escuta.
Acompanhei de longe, com interesse e admiração, seu mergulho nesse ritual da pega de boi, onde homens e animais cruzam a vegetação espinhosa em busca de mais que um prêmio — buscam pertencimento. Seu olhar não é apenas técnico; é sensível ao que pulsa sob o couro do gibão, à relação entre o homem e a natureza, à linguagem muda entre cavalo e cavaleiro.
Você parece compreender que, antes da imagem, existe o vínculo. Que fotografar é também estudar rostos, esperar a luz certa, perceber as intenções do gesto. Sua obra se constrói no tempo lento das coisas verdadeiras.
Vi também que, tempos atrás, foi o mar que lhe despertou. Agora é o sertão. Isso me comove. Porque sua trajetória prova que a beleza está em todo lugar — seja no movimento das ondas ou na poeira levantada pelo gado. O que importa é o olhar de quem testemunha.
Você chama sua exposição de vitrine. Eu diria que é espelho. Nela, o Brasil vê a si mesmo com mais nitidez. Não um país de folclores ou espetáculos vazios, mas de gente real, com histórias densas e silêncios antigos.
Siga assim, Antônio. Faça da sua arte um abrigo para as identidades que resistem. Suas imagens não são apenas registros: são convites à empatia.
Com respeito e estima,
Gordon Parks
Em algum lugar entre a memória e a luz
Concebida por Palmarí H. de Lucena