Aos homens que vivem em meio ao brilho das telas e à opacidade das almas,
Escrevo-vos da morada dos ausentes, onde já não há tempo nem urgência, apenas o eco dos pensamentos que nunca cessam. Permiti que este velho renegado do futuro vos dirija umas linhas – não para redimir-vos, pois a redenção tornou-se um produto de algoritmo, mas para perturbar-vos, se ainda sois capazes disso.
Quando, em minha época, escrevi Gog, fui acusado de cinismo, blasfêmia, loucura. Eu, que apenas descrevia o que via. Gog era um espelho grotesco, um monstro que devorava o mundo sob o pretexto de compreendê-lo. Hoje, descubro que ele não era exceção: era profecia. O mundo de Gog venceu.
Os senhores dizem-se conectados, mas esqueceram-se de ligar-se a si mesmos. Conversam com máquinas, adulam inteligências artificiais e vivem num confessionário de selfies onde o pecado foi substituído pelo engajamento. Inventaram uma moral de hashtags e uma fé de curtidas. Estão cada vez mais expostos — e cada vez mais invisíveis.
Os livros? Reduziram-nos a resumos animados. A arte? Um ativo digital único, NFT que ninguém contempla. A fé? Ou é espetáculo ou é ódio. Os vossos deuses agora se chamam Mercado, Inovação e Influência. E adorais suas imagens em alta definição — fabricadas por meninos de hoodie e alma sem lastro.
Oh, humanidade em ruínas! Ainda falais de liberdade, mas andais algemados ao toque do celular. Ainda jurais amor, mas vos desintegrais em relações descartáveis como copos de plástico. Buscais sentido nas terapias de palco, mas esquecestes que o silêncio também cura.
Reencontrei Gog em todos os cantos: num CEO que sonha com imortalidade digital; num bilionário que quer colonizar Marte antes de cuidar dos mendigos da Terra; num presidente que troca verdades por curtidas; num jovem que se autodefine por uma bio de 140 caracteres.
Queria gritar-vos como um anacoreta enlouquecido nos cruzamentos de vossas avenidas: a humanidade não precisa de mais progresso, mas de mais consciência. Mas sei que o grito se perderia no feed.
Talvez reste à minha voz apenas o destino dos profetas: ser ignorada enquanto se respira e ser citada — distorcida — depois que o pó nos acolhe.
E mesmo assim escrevo. Porque, como dizia aquele Nazareno que tanto me inquietou, “quem tiver ouvidos, que ouça”.
De um solitário no exílio da esperança,
Giovanni Papini
(outorgado apocrifamente pelo tempo)
Concebida por Palmarí H. de Lucena