Do silêncio das raízes à arte que acolhe nos jardins da cidade.
Querido Marcos,
Escrevo-lhe do tempo em que já não há peso sobre os ombros, mas ainda há memória nas mãos. Um tempo em que as raízes falam e o silêncio responde. Soube da tua obra, e quis dizer — com esta carta feita de vento e carvão — o quanto me comoveu.
Vi as tuas esculturas. Vi sobretudo as aves de arribação que esculpiste com alma e precisão, pousadas agora entre árvores e caminhos, como se ali sempre tivessem pertencido. Estão no parque de tua cidade como sinais de ternura. São aves que não apenas embelezam o espaço urbano — elas o humanizam. Em cada curva de asa, há algo que acolhe, que convida ao pouso interior.
Você entendeu o que tantos ainda resistem a compreender: que a arte precisa sair das paredes para encontrar o povo; que não é o mármore que dá dignidade a uma obra, mas sua capacidade de tocar quem passa por ela. Suas esculturas, colocadas nos jardins de prédios e nas praças públicas, são como sementes de reconexão plantadas entre o cimento e o céu.
Trabalhas com concreto, cerâmica, metal… Mas o que molda mesmo tua arte é o gesto. Um gesto que cuida, que observa, que escuta a paisagem antes de interferir. É esse o verdadeiro artista do espaço urbano: aquele que cria para o outro, e não para o aplauso.
Nos teus totens, fontes, bancos esculpidos ou figuras silenciosas, há sempre uma generosidade subjacente — a de quem oferece abrigo ao olhar cansado. Cada peça tua parece dizer: “a cidade também pode ser poética”.
Marcos, tua arte me faz acreditar que ainda há escultores que falam com o tempo, com a natureza e com a memória. E que a escultura não é apenas forma: é gesto que permanece. Por isso, te escrevo. Para dizer que, enquanto houver artistas como você, as aves continuarão a chegar, mesmo em tempos de exílio.
Com estima e reverência,
Frans Krajcberg
(Da mata ardida que se recusou a morrer)
Concebida por Palmarí H. de Lucena