Carta Apócrifa de Françoise Sagan a jovens escritoras brasileiras

Imagem concebida por IA
Carta Apócrifa de Françoise Sagan a jovens escritoras brasileiras

Queridas jovens mulheres que escrevem,

Imagino vocês diante de um caderno — ou de uma tela luminosa, o que dá quase no mesmo — tentando dar forma a algo que não se deixa fixar. É um gesto antigo, um pouco solitário, às vezes inútil, e ainda assim inevitável.

Quando publiquei meu primeiro romance, disseram que era imoral. Foi um exagero elegante. Eu apenas não tive o cuidado de mentir como se esperava de uma jovem. Em Bonjour Tristesse, limitei-me a observar: o verão, o tédio, o desejo, a leve crueldade das escolhas feitas sem grande reflexão. Isso bastou para incomodar. A ausência de lição costuma perturbar mais do que qualquer escândalo.

Vocês também serão convidadas a suavizar o que escrevem. Vão pedir explicações, motivações, redenções — como se toda personagem feminina devesse justificar sua existência. Não se apressem. A pressa em tornar tudo aceitável costuma empobrecer o texto.

Nem toda mulher precisa ser boa. Nem compreensível. Nem mesmo coerente. Há dias em que somos apenas atravessadas por um calor antigo, por uma memória que insiste, por um desejo que não leva a lugar algum — e isso, curiosamente, já é matéria suficiente.

Sempre desconfiei das histórias que se organizam demais. A vida não tem esse zelo. No Brasil de vocês — imagino — há sol demais, cansaço demais, barulho demais para que tudo faça sentido o tempo inteiro. Aproveitem isso. Há uma espécie de verdade no excesso, naquilo que transborda sem pedir licença.

Escrevam umas para as outras, mesmo sem saber. Há uma linha invisível que liga mulheres que escrevem, ainda que nunca se encontrem. Durante muito tempo, disseram que o que nos diz respeito é pequeno. Era apenas uma maneira de nos manter em voz baixa. Persistam — e, se possível, elevem um pouco o tom.

E não deixem de registrar o que significa ser mulher no Brasil. Não como discurso — isso envelhece rápido —, mas como experiência. O trabalho que se acumula, o dinheiro que não basta, o corpo que aprende cedo a se proteger, a alegria que sobrevive apesar disso tudo. Há literatura nisso — e, mais do que isso, há permanência.

Escrevam o calor das ruas, o peso das tardes longas, a exaustão que chega antes da noite. Escrevam também o riso, que às vezes aparece sem razão e salva o dia. Nem tudo precisa ser grave para ser verdadeiro.

Leiam, naturalmente. Eu li muito. Mas não se impressionem em excesso. A admiração, quando exagerada, paralisa. Leiam como quem conversa — e, se necessário, como quem discorda.

Quanto ao sucesso — se vier —, tratem-no com alguma indiferença. Ele costuma trazer consigo pessoas entediantes, elogios previsíveis e uma série de distrações que não escrevem por vocês. Na melhor das hipóteses, ele paga algumas contas. Na pior, cobra outras.

E há ainda a tentação de viver intensamente como se isso, por si só, garantisse bons livros. Não garante. A vida pode ser excessiva e, ainda assim, não produzir nada além de cansaço. A escrita, por outro lado, exige uma forma mais discreta de persistência.

Vocês não precisam ser exemplares. Isso costuma ser apenas uma exigência disfarçada de elogio. Escrevam mulheres que desejam, que hesitam, que se contradizem, que continuam apesar de si mesmas. É o suficiente.

Se disserem que seus textos incomodam, talvez estejam vivos. Se disserem que são pequenos, talvez estejam olhando de longe demais.

E quando a dúvida vier — porque ela sempre vem, como o fim de tarde —, não a tratem como tragédia. Escrever nunca foi seguro. É apenas uma maneira, ligeiramente elegante, de não se calar.

Continuem — mesmo que seja devagar, mesmo que seja aos poucos.

Com uma certa ironia, algum afeto e a consciência de que nada disso resolve muito —  mas ainda assim importa,


Françoise

Concebida por Palmarí H. de Lucena