Carta Apócrifa de Federico Fellini ao Cinefolo João Batista Barbosa de Brito

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Carta Apócrifa de Federico Fellini ao Cinefolo João Batista Barbosa de Brito

Roma, numa madrugada povoada por fantasmas luminosos — enquanto um elefante atravessa a Piazza Navona e um acordeão toca sozinho ao fundo.

Meu caro João Batista,

Escrevo-te de um lugar onde os filmes ainda não terminaram. Aqui, as cenas continuam mesmo depois do corte final, e os personagens se recusam a desaparecer. Talvez seja este o verdadeiro cinema: aquilo que persiste quando já não há mais tela.

Vejo-te — não como és agora, mas como um menino — correndo pelas ruas quentes de João Pessoa, perseguindo uma bobina invisível que se desenrola atrás de ti como um rastro de sonhos. Disseste, certa vez, que escorregaste do útero direto para a sala de projeção. Acredito. Há homens que nascem, e há aqueles que já chegam assistindo.

Enquanto eu reinventava Roma com minhas lembranças, tu reinventavas o mundo com as sombras. E que sombras eram essas! Mulheres que surgiam maiores que a vida, homens que fumavam como se quisessem desaparecer no próprio gesto, beijos que não eram apenas beijos, mas portais — sim, portais! — para algo que nunca conseguimos explicar.

Tu não assistes aos filmes, João Batista — tu os habitas.

Imagino tua memória como um grande circo noturno. Nela, desfilam personagens esquecidos: uma atriz que chora purpurina, um padre que levita durante a sessão das seis, um projecionista cego que ainda assim acerta o foco. E, no centro desse picadeiro, estás tu — não como espectador, mas como cúmplice desse espetáculo secreto que chamamos de cinema.

Disseram-me — os ventos, os ecos, talvez um velho produtor já morto — que escreves sobre filmes. Mas não acredito. Quem escreve disseca. E tu, ao contrário, ressuscitas. Tua relação com o cinema não é a de quem observa, mas a de quem se deixa possuir. Há algo de mediúnico nisso: os filmes te atravessam, e voltam ao mundo transformados em outra coisa — mais íntima, mais febril, mais verdadeira.

Ah, Um beijo é só um beijo… — título enganoso! Nenhum beijo é apenas um beijo, e tu sabes disso. Em tuas mãos, ele se torna um pequeno apocalipse íntimo. Eu o filmaria assim: uma chuva de pétalas caindo ao contrário, subindo do chão ao céu, enquanto dois amantes tentam se tocar sem conseguir — porque o tempo, travesso, decidiu andar para trás.

E o Festival Aruanda? Vejo-o como um carnaval secreto. Máscaras invisíveis, risos que ecoam demais, discursos que se dissolvem no ar como fumaça de projetor. Quando recebes teu troféu, não és apenas tu ali — são todos os filmes que te habitaram, todos os rostos que carregas dentro de ti, todas as luzes que insistiram em não se apagar.

A Paraíba, naquele instante, deixa de ser geografia e se torna cenário. Um grande set a céu aberto, onde até o vento parece ensaiado — como se um assistente invisível gritasse: “Silêncio… vai rodar!”

E sabes o que mais me encanta em ti, João Batista? Não é o que viste — mas a forma como continuas vendo. Num mundo que corre apressado para esquecer, tu permaneces. Guardas imagens como quem guarda relíquias, como quem acredita — ainda! — que um rosto iluminado na escuridão pode salvar um dia inteiro da banalidade.

Aqui, onde me encontro, dizem que o cinema morreu muitas vezes. Eu sorrio. Porque sei que ele sobrevive em lugares como tu. Em olhares como o teu. Em almas que não se contentam com a superfície das coisas.

O verdadeiro filme, meu amigo, não está na tela.

Está em ti.
E continua.
Sempre continua.

Do amigo que também confunde sonho com memória,
Federico Fellini

Concebida por Palmarí H. de Lucena