Carta Apócrifa de Federico Fellini ao Crítico Cinematográfico João Batista Barbosa de Brito

Carta Apócrifa de Federico Fellini ao Crítico Cinematográfico João Batista Barbosa de Brito

Roma, em um dia que talvez nunca tenha existido — entre um rolo de película e um sonho interrompido.

Meu caro João Batista,

Não há voo mais alto que o do menino que descobre o mundo por trás de uma cortina de luz. Assim te imaginei: um garoto curioso nas vielas de João Pessoa, escorregando — como disseste — do útero para a sala de projeção. Enquanto eu via Roma pelas lentes da infância, tu a vias em sombras projetadas num bairro quente, onde o cinema respirava entre o suor e o vento do mar.

A ti, que fizeste da crítica uma arte paralela, digo: poucos compreendem que o crítico é também um criador. Tu não apenas observas os filmes — tu os prolongas. Cada ensaio teu é um novo take, uma montagem afetiva em que a literatura se mistura à película e o pensamento ganha movimento. Quando li teus textos em Imagens Amadas, percebi o que sempre desejei filmar e nunca consegui: o instante em que a palavra se converte em imagem, e a imagem, em memória.

Em Literatura no Cinema, reconheci o mesmo gesto que repeti tantas vezes nos meus sets: o de buscar na palavra um corpo que respira. Teu olhar sobre as adaptações não é o de quem traduz, mas o de quem sonha junto. Tu sabes, como poucos, que a arte não se replica — ela se contamina, se mistura ao pó das emoções e aos ecos da alma.

Ah, e aquele teu Um beijo é só um beijo… quisera eu tê-lo filmado. Teria posto Giulietta a declamar os minicontos sob uma chuva de confetes, enquanto o beijo final seria roubado entre dois projetores que se acendem e se apagam, como corações descompassados diante da beleza.

Fico imaginando-te no Festival Aruanda, recebendo o troféu de Antônio Barreto Neto — e sorrio. Porque a Paraíba inteira, nesse instante, era uma Cinecittà em miniatura: as ruas transformadas em set, os amigos em figurantes da tua própria epopeia crítica, e o vento soprando como um operador de som distraído que captura o murmúrio dos anjos.

Tua cidade, João Batista, é feita de pequenas luzes eternas — como as das fitas de nitrato que queimavam nas mãos dos antigos projecionistas. E tu és o último deles: o que ainda acredita que o cinema pode iluminar o rosto do homem comum, revelando a beleza escondida no banal, o lirismo daquilo que insiste em permanecer humano.

De ti, guardarei a lição silenciosa: que a crítica, quando escrita com amor, é também um filme — só que projetado dentro da alma.

Do amigo que também sonha acordado,

Federico Fellini

Concebida por Palmarí H. de Lucena