Roma, em um dia que talvez nunca tenha existido — entre um rolo de película e um sonho interrompido.
Meu caro João Batista,
Não há voo mais alto que o do menino que descobre o mundo por trás de uma cortina de luz. Assim te imaginei: um garoto curioso nas vielas de João Pessoa, escorregando — como disseste — do útero para a sala de projeção. Enquanto eu via Roma pelas lentes da infância, tu a vias em sombras projetadas num bairro quente, onde o cinema respirava entre o suor e o vento do mar.
A ti, que fizeste da crítica uma arte paralela, digo: poucos compreendem que o crítico é também um criador. Tu não apenas observas os filmes — tu os prolongas. Cada ensaio teu é um novo take, uma montagem afetiva em que a literatura se mistura à película e o pensamento ganha movimento. Quando li teus textos em Imagens Amadas, percebi o que sempre desejei filmar e nunca consegui: o instante em que a palavra se converte em imagem, e a imagem, em memória.
Em Literatura no Cinema, reconheci o mesmo gesto que repeti tantas vezes nos meus sets: o de buscar na palavra um corpo que respira. Teu olhar sobre as adaptações não é o de quem traduz, mas o de quem sonha junto. Tu sabes, como poucos, que a arte não se replica — ela se contamina, se mistura ao pó das emoções e aos ecos da alma.
Ah, e aquele teu Um beijo é só um beijo… quisera eu tê-lo filmado. Teria posto Giulietta a declamar os minicontos sob uma chuva de confetes, enquanto o beijo final seria roubado entre dois projetores que se acendem e se apagam, como corações descompassados diante da beleza.
Fico imaginando-te no Festival Aruanda, recebendo o troféu de Antônio Barreto Neto — e sorrio. Porque a Paraíba inteira, nesse instante, era uma Cinecittà em miniatura: as ruas transformadas em set, os amigos em figurantes da tua própria epopeia crítica, e o vento soprando como um operador de som distraído que captura o murmúrio dos anjos.
Tua cidade, João Batista, é feita de pequenas luzes eternas — como as das fitas de nitrato que queimavam nas mãos dos antigos projecionistas. E tu és o último deles: o que ainda acredita que o cinema pode iluminar o rosto do homem comum, revelando a beleza escondida no banal, o lirismo daquilo que insiste em permanecer humano.
De ti, guardarei a lição silenciosa: que a crítica, quando escrita com amor, é também um filme — só que projetado dentro da alma.
Do amigo que também sonha acordado,
Federico Fellini
Concebida por Palmarí H. de Lucena