Carta Apócrifa de Eudésia Vieira a Rubens Nóbrega: O Brejo que Escreve em Nós

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Carta Apócrifa de Eudésia Vieira a Rubens Nóbrega: O Brejo que Escreve em Nós

Caro Rubens,

Escrevo-lhe movida por uma sensação que talvez só quem vem do Brejo compreenda plenamente: a de que certas paisagens permanecem dentro de nós como uma segunda memória. Penso muitas vezes em Bananeiras, em suas ladeiras silenciosas, nas varandas voltadas para a serra e naquele ar fresco que parece convidar à contemplação. É curioso como uma cidade pequena pode formar espíritos tão atentos às palavras e à vida.

Nós dois, de algum modo, somos frutos dessa mesma geografia afetiva. O Brejo paraibano não apenas nos abrigou na infância ou na juventude; ele nos ensinou a olhar o mundo com atenção às coisas simples — às conversas de praça, aos gestos cotidianos, às histórias que atravessam as famílias e as gerações.

Quando me dediquei à educação e aos escritos sobre a cultura de nossa região, movia-me justamente esse desejo de preservar o que muitas vezes passa despercebido. Nos textos e estudos que produzi sobre Bananeiras e sobre o Brejo, procurei registrar a memória das tradições locais, os costumes, as histórias de nossa gente e o papel da escola como guardiã dessa herança cultural. Sempre me pareceu que escrever sobre a terra onde nascemos é também uma forma de a defender do esquecimento. A escola, para mim, nunca foi apenas um espaço de instrução, mas também um lugar de cultivo da memória, onde as novas gerações podem reconhecer o valor da história e da identidade de sua própria comunidade.

Soube, com grande interesse, do lançamento de seu quarto livro, Memórias do Batente, obra que reúne lembranças e episódios acumulados ao longo de 51 anos de dedicação ao jornalismo — esse ofício exigente e fascinante que o senhor exerceu como repórter, editor, colunista, redator e tantas outras funções que o trabalho diário da notícia exige. Trata-se, pelo que compreendo, de um verdadeiro balanço de meio século de convivência com os acontecimentos e com as pessoas que dão forma à vida pública.

A divisão do livro em três partes — Trajetórias, Tragédias e Derivas — revela bem a natureza dessa caminhada. São capítulos que parecem acompanhar o movimento da própria experiência jornalística: os caminhos percorridos, os acontecimentos marcantes e os desvios inesperados que o tempo e a história impõem. Ao reunir esses relatos, o senhor oferece não apenas memórias pessoais, mas também um testemunho de época. Como o próprio senhor sintetizou, tratam-se de episódios de sua vida de jornalista sempre conectados com o mundo real — o que é, afinal, a essência do bom jornalismo.

Ao ler suas crônicas e agora ao conhecer esse livro, percebo algo que sempre me pareceu essencial: sua escrita não se limita ao comentário político ou ao registro factual. Há nela também a sensibilidade do cronista que observa o cotidiano e procura compreender o sentido humano dos acontecimentos. Em suas páginas, episódios da vida pública paraibana se entrelaçam com experiências pessoais, criando uma narrativa que é ao mesmo tempo memória individual e retrato coletivo de nosso tempo.

Vejo nisso uma continuidade natural da tradição de cronistas nordestinos que transformam a observação da realidade em literatura. No seu caso, porém, há sempre um fio que nos reconduz ao Brejo — como se cada reflexão carregasse, ainda que discretamente, a marca da formação interiorana que Bananeiras oferece a quem cresce entre suas colinas e sua história.

Talvez seja essa a maior dádiva de nossa origem comum: compreender que a cultura não se limita aos livros ou às academias, mas nasce também das conversas simples, das memórias familiares, das festas populares e do modo particular como o povo de nossa região interpreta o mundo.

Assim, quando leio suas crônicas — agora também reunidas em Memórias do Batente — e recordo meus próprios escritos sobre a vida e a cultura do Brejo paraibano, percebo que partilhamos uma mesma intenção: a de registrar, cada qual à sua maneira, aquilo que Bananeiras nos ensinou a ver — a história das pessoas comuns, os sinais da vida social e a memória cultural que sustenta a identidade de nossa terra.

Receba, portanto, estas linhas como um gesto de reconhecimento entre pessoas que compartilham a mesma paisagem cultural — unidas pela memória de Bananeiras e pela convicção de que escrever é, antes de tudo, uma forma de preservar o espírito de nossa terra.

Com estima,

Eudésia Vieira

Concebida por Palmarí H. de Lucena