Não sei exatamente quando começamos a compreender. Talvez não tenha sido compreensão, mas cansaço — um cansaço que se instala devagar, como a lama que sobe pelas botas e depois já não se distingue da própria pele. No início ainda falávamos: sobre casa, sobre o futuro, sobre coisas que pareciam possíveis. As palavras vinham fáceis, como se ainda pertencessem a nós. Depois foram rareando. Não porque não houvesse o que dizer, mas porque tudo já estava dito de antemão — e nada mudava. Agora ficamos mais tempo em silêncio.
Há momentos em que o mundo se reduz a muito pouco: um pedaço de pão, um cigarro passado de mão em mão, o som de alguém respirando ao lado. Isso basta. Precisa bastar. Tudo o resto se tornou distante, quase inventado. Lembro-me de como nos ensinaram. Falavam de dever como se fosse algo claro. Falavam de honra como se fosse visível. Aqui, essas coisas não aparecem. O que vemos são homens tentando não desaparecer.
O curioso é que ainda vivemos. Apesar de tudo, ainda há em nós uma espécie de apego teimoso, quase absurdo. Não é coragem, tampouco esperança — é apenas o hábito de continuar. Às vezes olho para os outros e penso que já não somos jovens. Não envelhecemos — isso exigiria tempo. Fomos deslocados para fora dele, como se tivéssemos sido retirados do curso normal das coisas e colocados aqui, onde nada cresce.
O inimigo está tão perto que já não parece estranho. Quando o imaginamos, ele se parece conosco: deve estar deitado na mesma lama, pensando as mesmas coisas, esperando pelas mesmas horas vazias. Se nos encontrássemos sem armas, talvez nem soubéssemos o que fazer. Há dias em que tudo fica suspenso. Nem avançamos, nem recuamos — apenas permanecemos. E nesse permanecer há algo pior do que o perigo: um esvaziamento lento, como se, pouco a pouco, deixássemos de ocupar o próprio corpo.
E, no entanto, a morte também mudou.
Antes, ela vinha com passos que podíamos ouvir, com direções que podíamos adivinhar. Agora, ela se aperfeiçoa. Aprende. Afasta-se do corpo humano e se torna cálculo, máquina, distância. Vem do alto, em silêncio ou num zumbido fino que cresce tarde demais. Não procura um rosto — procura uma coordenada.
Há algo de mais frio nisso. Não pela violência, que sempre existiu, mas pela ausência. A morte já não precisa sequer de quem a execute de perto. Ela desce sozinha, guiada por olhos que não veem como vemos, por decisões que não hesitam.
E nós, aqui embaixo, sentimos isso.
Sentimos que já não somos enfrentados, mas encontrados. Como se estivéssemos sendo procurados por algo que não nos conhece e, por isso mesmo, não pode nos reconhecer. Não há troca. Não há instante compartilhado. Apenas a interrupção.
Talvez seja esse o verdadeiro aperfeiçoamento: retirar da morte até mesmo a última aparência de encontro humano.
Pergunto-me, então, o que resta quando até isso desaparece. Quando já não há sequer a ilusão de confronto, mas apenas a certeza de que algo pode vir do céu e terminar tudo sem testemunha, sem memória imediata, sem nome.
E, ainda assim, continuamos.
Não por força, mas por inércia da vida. Porque o corpo insiste onde o sentido falha. Porque, mesmo reduzidos a quase nada, ainda respiramos — e isso já é uma forma de resistência que não se declara.
Pergunto-me, às vezes, se alguém ainda se lembra de como éramos antes. Não nós aqui, mas aqueles que ficaram. Se ainda existe, em algum lugar, a ideia de que fomos mais do que isso. Mas essas perguntas não vão longe. Param no meio do caminho, como tudo o mais. O que aprendemos aqui não pode ser dito fora daqui — não porque seja secreto, mas porque perdeu a forma das palavras. É algo que se carrega: nos gestos, nos silêncios, no modo como se olha para aquilo que ainda vive.
E talvez seja isso o que mais pesa: saber que, mesmo voltando, não levaremos de volta aquilo que fomos. Ficaremos. De algum modo, ficaremos sempre aqui.
Ainda assim, longe daqui, alguém continuará a falar. Em salas limpas, repetem-se as mesmas palavras: dever, honra, necessidade. Organizam decisões, justificam movimentos, parecem dar sentido ao que, visto de perto, se desfaz. Talvez não haja apenas culpados — talvez haja também distância. Distância entre quem decide e quem vive as consequências. Entre a ideia e o corpo. Entre o plano e o instante final de um homem.
Mas há algo que atravessa essa distância — e é simples: cada vida interrompida não pertence a um lado, não confirma uma teoria, não completa um argumento. Apenas termina.
Se estas linhas algum dia forem lidas, que não sirvam como acusação nem como defesa. Que sirvam como lembrança de que toda decisão carrega um peso que não aparece nos mapas. E que, mesmo no meio da destruição, algo resiste — não como heroísmo, mas como recusa silenciosa: a recusa de aceitar que a morte seja o único desfecho possível.
Não sabemos como se constrói a paz. Aqui aprendemos mais sobre o que a destrói. Mas talvez isso já seja um começo. Porque compreender o que não deve se repetir é, ainda que pouco, uma forma de preservar o que resta. E o que resta — por menor que seja — ainda é vida.
E enquanto houver vida, mesmo ferida, mesmo incompleta, ainda existe a possibilidade de escolher diferente. Que este testemunho não procure convencer, mas interromper — ainda que por um instante — a certeza. Porque é na pausa, e não no impulso, que pode nascer aquilo que nunca tivemos aqui: um futuro que não precise ser defendido pela morte.
Que, ao menos uma vez, a vida pese mais do que qualquer vitória.
— Erich Maria Remarque (apócrifo)
Por Palmarí H. de Lucena