Caro Joca da Costa,
Escrevo-lhe como quem atravessa não apenas distâncias geográficas, mas também aquelas que separam o pensamento da poesia — embora eu desconfie que, em sua obra, tais fronteiras já tenham sido dissolvidas.
Tenho refletido, como tantas vezes, sobre o amor. Em minha compreensão, o amor não é um acontecimento fortuito, nem um estado passivo em que simplesmente caímos. Amar é uma arte — e, como toda arte, exige disciplina, atenção, paciência e coragem. Coragem de sair de si mesmo sem perder a própria essência; de encontrar o outro sem reduzi-lo a objeto de posse.
No entanto, ao imaginar seus versos e seu olhar sobre o mundo, percebo algo que talvez a teoria não alcance por inteiro: o amor como forma de resistência. Não apenas o amor entre dois, mas o amor pela vida que insiste, mesmo quando o chão é árido, quando o tempo pesa e quando a existência parece endurecida.
Vejo, então, que aquilo que procurei formular em pensamento encontra, em sua sensibilidade, uma expressão viva. Amar não é cair, mas construir — como quem cultiva um solo difícil, como quem insiste no gesto mesmo quando não há garantias.
E é nesse ponto que seu olhar me chama a atenção. Falar do amor pelo belo é também falar dessas imagens espontâneas, desses registros feitos com um simples celular, que, ainda assim, dizem tanto. Há nelas uma busca silenciosa: a procura pelo belo não apenas nos seres humanos, mas nas coisas, nos movimentos, na luz que atravessa o instante e o torna único.
Esse gesto de capturar o que passa revela algo essencial: amar é também aprender a ver. Ver o detalhe, o efêmero, o que não se repete. O belo deixa, assim, de ser uma ideia distante e passa a habitar o cotidiano — nos objetos esquecidos, nos gestos involuntários, nas pequenas variações do mundo.
Essas imagens, muitas vezes imperfeitas, carregam uma verdade que a perfeição desconhece: a do momento vivido. Não são apenas registros, mas testemunhos de presença. E talvez aí resida uma das formas mais profundas de amor — na capacidade de perceber e de se deixar tocar pelo que existe.
Digo-lhe, portanto, caro Joca: continue a amar através da palavra, do olhar e do gesto. Pois a palavra que ama não domina, não prende, não consome — ela revela, cuida e liberta. E o olhar que ama não busca apenas o extraordinário, mas reconhece o valor do que é simples, passageiro e, ainda assim, pleno de sentido.
Talvez o amor jamais possa ser completamente explicado. Mas pode ser vivido — no encontro, na criação, na atenção ao mundo. E, como suas imagens e seus versos parecem sugerir, ele se revela justamente nesses fragmentos: no que é breve, no que é silencioso, no que insiste em existir apesar de tudo.
Diante disso, falar do amor pelo belo é reconhecer que ele não se limita a grandes obras ou a padrões idealizados, mas se manifesta, sobretudo, nos pequenos gestos e nas experiências cotidianas. As fotografias espontâneas feitas com um celular tornam-se, assim, uma expressão desse olhar sensível, capaz de encontrar significado não apenas nas pessoas, mas também nas coisas, nos movimentos e nos instantes mais simples da vida.
Essas imagens revelam que o belo está presente no que é passageiro e, muitas vezes, imperfeito. Ao registrar um detalhe, uma luz ou um gesto, o indivíduo demonstra não apenas um desejo de guardar o momento, mas também uma forma de se relacionar com o mundo de maneira mais atenta e afetiva.
Portanto, a busca pelo belo, expressa nessas fotografias, ultrapassa a estética e se transforma em uma atitude diante da vida. Trata-se de um modo de ver, sentir e valorizar o que existe, reafirmando que amar o belo é, acima de tudo, aprender a perceber — e, ao perceber, dar sentido ao mundo ao nosso redor.
Que você continue encontrando o belo não apenas nas pessoas, mas nas coisas, nos movimentos e nos silêncios — pois é nesse encontro que o amor deixa de ser ideia e se torna experiência viva.
Com estima,
Erich Fromm
Concebida por Palmarí H. de Lucena