Carta apócrifa de Epitácio Pessoa aos que ainda acreditam no Brasil

Revista Pèlerin, Paris 1919
Carta apócrifa de Epitácio Pessoa aos que ainda acreditam no Brasil

Brasileiros,

Permitam-me dirigir-me a vós não movido por nostalgia nem por vaidade póstuma, mas por um senso de dever cívico que ultrapassa o tempo. Ao completar-se cento e sessenta anos do meu nascimento, observo com atenção — e não sem inquietação — os rumos da República. A memória não deve servir apenas ao culto cerimonial, mas à reflexão serena sobre o que construímos, onde falhamos e o que ainda se pode edificar. O Brasil, mais do que nunca, carece de direção que una propósito e permanência — menos retórica, mais Estado.

Conheci Rui Barbosa, a Águia de Haia. De sua pena nasceram frases eternas, mas do meu esforço nasceram instituições, pontes, reformas. Enquanto ele alçava voo sobre os ideais, eu afundava as botas no lodo da República nascente, construindo alicerces onde só havia promessas e caos. Não nego sua grandeza. Mas afirmo a minha diferença: ele encantava; eu governava.

Meu tempo foi o das crises: pandemia, pós-guerra, revoltas. E foi nesse tempo que compreendi que governar é mais do que falar — é suportar, decidir, agir. Enquanto alguns escreviam o país que desejavam, eu construía o país que era possível.

Aprendi, desde cedo, que o verdadeiro civismo não se exibe: pratica-se. Ser patriota não é brandir bandeiras em festas efêmeras, mas trabalhar em silêncio pelo bem comum, mesmo sem reconhecimento. Amar o Brasil é zelar por suas instituições, respeitar sua justiça, cuidar de seu povo como quem cuida da própria casa.

Aos jovens de hoje, digo: vossa pátria não será salva por frases de efeito nem por performances nas redes. O Brasil pede ação silenciosa, trabalho constante, compromisso com a verdade — virtudes raras em tempos de ambição disfarçada de carisma. O patriotismo de ocasião é canto breve. O civismo real é exercício diário, que resiste ao tempo e ao desgaste do poder.

O poder, quando serve apenas ao seu portador, apodrece. Mas quando é instrumento da justiça e do povo, finca raízes. Assim o entendi, assim o exerci. Não vos peço aplausos tardios, nem estátuas em praças esquecidas. Peço apenas que reconheçais: há diferença entre quem deseja ser lembrado e quem deseja servir.

Enquanto houver um só brasileiro que confunda popularidade com grandeza, a República continuará à deriva. Mas se ainda restar quem compreenda que governar é sacrificar a vaidade em nome da estabilidade, então ainda há esperança.

Do sertão de Umbuzeiro à sala austera do Catete, minha vida foi ponte — entre o sonho e o possível, entre o verbo e a ação. Que ela vos inspire a erguer um Brasil de alicerces, e não apenas de slogans.

Com severa lucidez e amor à pátria,
Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa

Concebida por Palmarí H. de Lucena