Carta Apócrifa de Elizabeth Bishop ao poeta paraibano Sérgio de Castro Pinto

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Carta Apócrifa de Elizabeth Bishop ao poeta paraibano Sérgio de Castro Pinto

Rio de Janeiro, em tarde de garça e silêncio,      

Prezado Sérgio,

Há cartas que não nascem para chegar — apenas para resistir. Escrevo-lhe assim, como quem lança palavras ao vento manso da tarde, sem saber se encontrarão destino, mas confiando que o gesto de as escrever já justifica sua existência.

Li seus versos-crônica sobre estes tempos de vozes excessivas e metáforas rarefeitas. Reconheci ali o esforço raro de quem ainda acredita que o poema, mesmo quando cercado de ruído, pode ser abrigo — nunca trincheira.

Sempre desconfiei do excesso. A poesia, quando grita demais, perde o ouvido do mundo.

Aprendi isso observando coisas pequenas. Lembro-me de um peixe que um dia descrevi com atenção quase científica: velho, marcado por batalhas invisíveis, sua pele pendendo como papel de parede antigo e suas escamas refletindo a luz com uma dignidade inesperada. Foi então que compreendi que o detalhe — quando verdadeiramente visto — pode conter o mundo inteiro.

Nos seus poemas reconheço esse mesmo olhar.

Quando você transforma um simples aspirador em um tamanduá doméstico que aspira os dias convertidos em pó, o cotidiano reaparece sob outra luz. Não é mais objeto: é metáfora respirando dentro da casa.

Há também, em sua poesia, uma delicada consciência da tradição. Quando sugere que a intertextualidade ocorre quando o tigre de Blake devora o rouxinol de Keats, imagino a literatura como um pequeno bestiário onde os poemas continuam a se encontrar, a se atravessar, a se devorar com elegância.

Talvez por isso seus versos me pareçam tão atentos à forma breve. Eles lembram pequenos organismos vivos — compactos, precisos, silenciosos.

Penso nas suas cigarras, por exemplo. Elas não cantam: vibram. Suas guitarras ásperas atravessam o verão como uma música mineral, insistente, que rasga o silêncio das tardes brasileiras. Há algo profundamente verdadeiro nessa imagem — porque o poema, às vezes, também precisa vibrar contra o calor do mundo.

E há ainda o seu tamanduá, criatura paciente que fareja o invisível. Ele me parece uma metáfora involuntária do próprio poeta: alguém que persiste em procurar, no chão comum das coisas, o alimento secreto das imagens.

Nos seus livros percebo também aquilo que você certa vez chamou de gestos lúcidos — pequenos movimentos de linguagem capazes de devolver nitidez ao real. Não se trata de grandiloquência, mas de precisão. De olhar demorado. De economia.

Esse talvez seja o gesto mais difícil na poesia contemporânea: resistir ao excesso.

Vivemos um tempo em que muitos poemas desejam ser cartazes, slogans, declarações apressadas. Há beleza na cólera, sem dúvida — mas apenas quando encontra forma. Caso contrário, dissolve-se em ruído.

A poesia que admiro — e que reconheço em seus versos — prefere outro caminho.

Ela caminha ao lado do tempo, mas não se curva ao alarido.
Constrói-se de hesitação, de lapidação, de silêncio.

É menos faísca, mais brasa.

Sei que há urgências. Sei que o mundo frequentemente exige respostas rápidas, palavras altas, versos que pareçam resolver aquilo que apenas a vida pode resolver.

Mas o poema — creio — pertence a outro ritmo.

Ele nasce da observação paciente: de uma garça imóvel sobre a água, de um inseto insistindo na tarde, de um objeto doméstico que de repente revela sua natureza secreta.

Talvez seja por isso que continuo acreditando no detalhe. Na pequena epifania que surge quando o olhar desacelera.

A poesia não precisa dominar o mundo. Basta iluminá-lo por um instante — como a breve cintilação que aparece na superfície da água quando um peixe se move lentamente sob a luz.

Por isso lhe agradeço.

Por recusar atalhos.
Por cuidar do verso como quem recolhe estilhaços de espelho — não para glorificá-los, mas para reorganizar a luz.

Siga firme, meu caro. Mesmo quando parecer inútil. Mesmo quando a poesia for confundida com proclama ou espetáculo.

Há sempre alguém que escuta — mesmo que em segredo — o delicado estalo de uma imagem bem construída.

Com respeito e ternura de quem sempre preferiu os detalhes às declarações,

Elizabeth Bishop

Concebida por Palmarí H. de Lucena