Rio de Janeiro, em tarde de garça e silêncio,
Prezado Sérgio,
Há cartas que não nascem para chegar — apenas para resistir. Escrevo-lhe assim, como quem lança palavras ao vento manso da tarde, sem saber se encontrarão destino, mas confiando que o gesto de as escrever já justifica sua existência.
Li seus versos-crônica sobre estes tempos de vozes excessivas e metáforas rarefeitas. Reconheci ali o esforço raro de quem ainda acredita que o poema, mesmo quando cercado de ruído, pode ser abrigo — nunca trincheira.
Sempre desconfiei do excesso. A poesia, quando grita demais, perde o ouvido do mundo.
Aprendi isso observando coisas pequenas. Lembro-me de um peixe que um dia descrevi com atenção quase científica: velho, marcado por batalhas invisíveis, sua pele pendendo como papel de parede antigo e suas escamas refletindo a luz com uma dignidade inesperada. Foi então que compreendi que o detalhe — quando verdadeiramente visto — pode conter o mundo inteiro.
Nos seus poemas reconheço esse mesmo olhar.
Quando você transforma um simples aspirador em um tamanduá doméstico que aspira os dias convertidos em pó, o cotidiano reaparece sob outra luz. Não é mais objeto: é metáfora respirando dentro da casa.
Há também, em sua poesia, uma delicada consciência da tradição. Quando sugere que a intertextualidade ocorre quando o tigre de Blake devora o rouxinol de Keats, imagino a literatura como um pequeno bestiário onde os poemas continuam a se encontrar, a se atravessar, a se devorar com elegância.
Talvez por isso seus versos me pareçam tão atentos à forma breve. Eles lembram pequenos organismos vivos — compactos, precisos, silenciosos.
Penso nas suas cigarras, por exemplo. Elas não cantam: vibram. Suas guitarras ásperas atravessam o verão como uma música mineral, insistente, que rasga o silêncio das tardes brasileiras. Há algo profundamente verdadeiro nessa imagem — porque o poema, às vezes, também precisa vibrar contra o calor do mundo.
E há ainda o seu tamanduá, criatura paciente que fareja o invisível. Ele me parece uma metáfora involuntária do próprio poeta: alguém que persiste em procurar, no chão comum das coisas, o alimento secreto das imagens.
Nos seus livros percebo também aquilo que você certa vez chamou de gestos lúcidos — pequenos movimentos de linguagem capazes de devolver nitidez ao real. Não se trata de grandiloquência, mas de precisão. De olhar demorado. De economia.
Esse talvez seja o gesto mais difícil na poesia contemporânea: resistir ao excesso.
Vivemos um tempo em que muitos poemas desejam ser cartazes, slogans, declarações apressadas. Há beleza na cólera, sem dúvida — mas apenas quando encontra forma. Caso contrário, dissolve-se em ruído.
A poesia que admiro — e que reconheço em seus versos — prefere outro caminho.
Ela caminha ao lado do tempo, mas não se curva ao alarido.
Constrói-se de hesitação, de lapidação, de silêncio.
É menos faísca, mais brasa.
Sei que há urgências. Sei que o mundo frequentemente exige respostas rápidas, palavras altas, versos que pareçam resolver aquilo que apenas a vida pode resolver.
Mas o poema — creio — pertence a outro ritmo.
Ele nasce da observação paciente: de uma garça imóvel sobre a água, de um inseto insistindo na tarde, de um objeto doméstico que de repente revela sua natureza secreta.
Talvez seja por isso que continuo acreditando no detalhe. Na pequena epifania que surge quando o olhar desacelera.
A poesia não precisa dominar o mundo. Basta iluminá-lo por um instante — como a breve cintilação que aparece na superfície da água quando um peixe se move lentamente sob a luz.
Por isso lhe agradeço.
Por recusar atalhos.
Por cuidar do verso como quem recolhe estilhaços de espelho — não para glorificá-los, mas para reorganizar a luz.
Siga firme, meu caro. Mesmo quando parecer inútil. Mesmo quando a poesia for confundida com proclama ou espetáculo.
Há sempre alguém que escuta — mesmo que em segredo — o delicado estalo de uma imagem bem construída.
Com respeito e ternura de quem sempre preferiu os detalhes às declarações,
Elizabeth Bishop
Concebida por Palmarí H. de Lucena