Rio de Janeiro, em tarde de garça e silêncio,
Prezado Sérgio,
Há cartas que não nascem para chegar — apenas para resistir. E é com essa intenção, mais brisa do que brado, que lhe escrevo.
Li seus versos-crônica sobre os tempos de vozes excessivas e metáforas ausentes. Reconheci, entre as linhas, o esforço de quem ainda crê que um poema, mesmo em ruínas, pode ser abrigo — nunca trincheira.
Desde minha chegada ao Brasil, aprendi que este país abriga assombros e encantamentos na mesma esquina. Aqui, onde a palavra arde ou naufraga, compreendi que o lirismo não se impõe: se infiltra. Ele não grita para ser ouvido — sussurra com precisão.
Você, com olhos atentos e pena sóbria, aponta o risco de transformar poesia em cartaz. Há beleza na cólera, sim — mas só quando domada. A pressa, ao contrário, esfarela o verso, encurta o fôlego do texto e deixa o leitor sem chão e sem epifania.
A poesia que desejo — e a que você parece ainda cultivar — não se deixa capturar pelo instante. Ela caminha ao lado do tempo, mas não se curva ao alarido. Constrói-se de hesitação e lapidação. É menos faísca, mais brasa.
Sei que há urgências. Sei que há abismos. Mas também sei que o papel é território de paciência. Nele, a forma importa — e o silêncio entre as palavras vale tanto quanto a palavra em si.
Por isso lhe agradeço: por recusar atalhos. Por cuidar do verso como quem cuida de um espelho quebrado — sem negar os estilhaços, mas sem glorificá-los.
Siga firme, meu caro. Mesmo quando parecer inútil. Mesmo quando a poesia for confundida com proclama. Há sempre alguém que escuta — mesmo que em segredo — o sutil estalo de uma imagem bem construída.
Com respeito e ternura de quem também preferiu os detalhes às declarações,
Elizabeth Bishop
Concebida por Palmarí H. de Lucenas