Nova York, sem data, mas em pleno entardecer da liberdade
Não escrevo para agradar. Escrevo — e sempre escrevi — para resistir ao adormecimento da razão. Escrevo agora para vocês: jornalistas em silêncio, em dúvida ou já vencidos pela conveniência. Aqueles que um dia empunharam o microfone ou a caneta como instrumentos de clareza, mas hoje hesitam diante da névoa e da censura disfarçada de ordem.
A verdade pode ser controversa, mas jamais supérflua.
Os fatos não pedem licença: eles chegam. E quando chegam, devem ser relatados com honestidade e coragem. Não há espaço, ou tempo, para a covardia vestida de “isenção”. O silêncio, senhores, não é uma postura ética — é abdicação.
“Este instrumento pode ensinar, pode iluminar — sim, até inspirar. Mas só o fará na medida em que os seres humanos estiverem dispostos a usá-lo com responsabilidade”, alertei certa vez sobre o poder da televisão. A advertência permanece para todo jornalismo, seja em ondas de rádio, linhas de texto ou algoritmos digitais.
Hoje, vemos crescerem as estruturas da difamação orquestrada, dos linchamentos morais, dos ataques coordenados à Suprema Corte, à imprensa, à memória, à democracia. E tudo isso é feito com uma semântica torcida: chamam de “liberdade” o que na verdade é licença para ferir, mentir e destruir.
Mas há um novo e sorrateiro adversário: os algoritmos. Invisíveis, automáticos, e aparentemente neutros, eles moldam percepções, filtram a realidade e confinam os indivíduos em bolhas de confirmação. Ao priorizarem o sensacionalismo, a indignação e a mentira palatável, transformam o jornalismo num espetáculo domesticado, onde a verdade se curva à lógica do engajamento. O perigo agora não vem apenas do censor visível, mas do código oculto que decide o que é visto, lido e acreditado.
Vocês sabem disso. Sentem. Mas entre o saber e o dizer há o medo — ou o cálculo. E nisso, o jornalismo deixa de ser janela e vira biombo.
Recordo-lhes o seguinte: “A falência de um jornal começa quando ele abdica de seu dever de incomodar os confortáveis e confortar os aflitos.” O conforto do poder nunca foi nosso público-alvo. Nosso compromisso é com o interesse público, não com os interesses do público.
A imparcialidade não é neutralidade. Imparcialidade é ver e mostrar todos os lados — sim — mas jamais se omitir diante do que fere a verdade. A neutralidade, quando usada como escudo para a covardia, é tão nociva quanto a propaganda.
A era em que vivemos não permite rodeios. “Não podemos confundir dissidência com deslealdade”, alertei durante os anos sombrios do macarthismo. Essa lição precisa ser repetida a cada geração. O dissidente, o crítico, o questionador — são, muitas vezes, os verdadeiros leais à democracia.
O jornalismo que teme o cancelamento, que se curva ao patrulhamento ideológico — à direita ou à esquerda — não é mais jornalismo. É publicidade.
Sei que escrever — ou falar — a verdade é perigoso. Sempre foi. Mas esconder-se atrás da ambiguidade ou da covardia intelectual é ainda mais perigoso. Porque isso mata o que resta de liberdade no corpo da sociedade.
Não vos peço heroísmo. Peço apenas que não permitam que o medo dite sua pauta. Que não deixem apagar, por dentro, a centelha da integridade.
Com respeito e urgência,
Edward R. Murrow
(ou aquilo que em mim ainda se recusa a silenciar)
Concebida por Palmarí H. de Lucena