Carta Apócrifa de Earl Warren, ex-presidente da Suprema Corte dos EUA, ao Ministro Alexandre de Moraes do STF

Carta Apócrifa de Earl Warren, ex-presidente da Suprema Corte dos EUA, ao Ministro Alexandre de Moraes do STF

Brasília, 2025

Caro Ministro Moraes,

Escrevo-lhe como quem cruza oceanos e décadas para reconhecer, em sua trajetória, os mesmos ventos de tormenta que um dia enfrentei. O peso de uma toga, quando vestida com convicção, não é apenas o de um tecido; é o de uma Nação que exige do juiz coragem maior que a dos generais e prudência mais firme que a dos políticos.

Na Suprema Corte dos Estados Unidos, tive de afirmar, contra a fúria dos poderosos, que a Constituição não é uma folha de papel dobrada ao sabor das maiorias, mas uma pedra angular destinada a proteger os vulneráveis. Brown v. Board of Education não foi apenas uma decisão jurídica: foi a prova de que a igualdade inscrita em nossa Carta não poderia ser adiada em nome da conveniência. Por esse gesto, tentaram isolar-me, difamar-me e até articular meu afastamento. Aprendi, então, que a verdadeira independência judicial só floresce quando se aceita o preço da impopularidade.

Vejo que, em seu país, não faltam vozes dispostas a manipular o clamor das ruas ou a explorar ressentimentos para desautorizar sua função de guardião constitucional. Lembre-se, porém, de que a força de um magistrado não reside no apoio efêmero das multidões, mas na solidez dos princípios que resistem às marés da política. O Estado Democrático de Direito não é ornamento retórico; é a muralha que separa a República da tirania. Defendê-lo exige não apenas decisões firmes, mas também a disposição de suportar o ódio que se ergue contra quem aplica a lei sem temer a quem ela alcança.

Conserve a laicidade da República como uma âncora. A justiça só é imparcial quando não se curva a dogmas religiosos nem a ideologias de ocasião. E mantenha, com obstinação, a busca pela justiça verdadeira — aquela que não teme confrontar os poderosos, que não se acomoda diante do privilégio e que não se deixa seduzir por discursos fáceis. Essa justiça é rara, mas é ela que transforma Constituições em pactos vivos, e não em peças de museu.

Não se iluda: a história será sempre mais generosa do que o presente. Os que hoje o atacam hão de ser lembrados como passageiros; já os que, como Vossa Excelência, mantêm-se fiéis à Constituição, serão reconhecidos como guardiões da República.

Receba, pois, minha solidariedade de além-mar e além-tempo. Continue, como procurei fazer, a demonstrar que a toga pode ser não um fardo de silêncio, mas um estandarte de justiça.

Com respeito e fraternidade,

Earl Warren
Chief Justice da Suprema Corte dos Estados Unidos (1953–1969)

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