Dom Delson, querido irmão,
Estas palavras nascem como quem reza. Não são apenas lembrança, mas sopro de uma presença que permanece viva na história desta Igreja e no coração do seu povo.
A Igreja da Paraíba vive um tempo de graça. Deus continua chamando pastores para cuidar do seu rebanho. E hoje, mais uma vez, Ele reúne caminhos diferentes para realizar o seu projeto de amor: um filho de Minas Gerais e um filho da Bahia, unidos no serviço a este povo paraibano, tão rico em fé, em resistência e em esperança.
Vede como Deus age: Ele não escolhe apenas lugares — Ele escolhe corações disponíveis. E quando os corações se abrem, as distâncias deixam de existir, e nasce a comunhão.
Mas é preciso reconhecer, meu irmão: vivemos tempos difíceis. Tempos em que os corações muitas vezes se fecham, em que a sociedade se divide, em que cresce a polarização, o desentendimento e até a desconfiança entre irmãos. Há muitas vozes, muitos ruídos, muitas certezas duras — e, ao mesmo tempo, muitas dúvidas profundas.
Neste cenário, a missão da Igreja torna-se ainda mais delicada e necessária.
A Igreja não pode ser eco da divisão. Ela é chamada a ser sinal de unidade.
Não pode alimentar o medo. É chamada a semear confiança.
Não pode endurecer o coração. É chamada a acolher, escutar e reconciliar.
Ser pastor, hoje, é ajudar o povo a não se perder no meio das tensões. É lembrar que, antes de qualquer diferença, somos irmãos. É ensinar, com a vida, que a verdade do Evangelho nunca se separa da caridade.
Esta terra ensina. Ensina com o sofrimento dos seus filhos, mas também com a beleza de uma fé simples, que não desiste. O povo paraibano sabe esperar. Sabe rezar. Sabe confiar. E, por isso mesmo, espera de seus pastores não apenas palavras, mas presença viva.
Ser pastor, meu irmão, é mais do que conduzir — é caminhar junto. É parar para escutar. É inclinar-se diante da dor do outro. É também acolher aqueles que estão confusos, cansados, desanimados na fé. Há muitos que duvidam — e a Igreja não deve afastá-los, mas abraçá-los com paciência.
Quando falais de ser irmão, falais de algo profundamente evangélico. Porque, no fim, é isso que somos: irmãos. E só seremos Igreja de verdade quando cada pessoa puder sentir que pertence, que é acolhida, que tem lugar — inclusive aqueles que pensam diferente, que questionam, que ainda estão buscando.
A paz que desejais semear não nasce do silêncio das dificuldades, mas do encontro sincero entre as pessoas. A esperança que anunciais não é promessa distante — é presença concreta, construída no dia a dia, nos gestos simples, na proximidade.
Lembrai-vos sempre: o povo não precisa de um pastor distante, mas de um pastor com cheiro de povo, com coração atento, com mãos estendidas — especialmente em tempos em que tantos se sentem perdidos ou feridos.
E vede ainda este sinal bonito: Deus uniu um mineiro e um baiano para servir ao mesmo povo. Isso é mais do que coincidência — é Evangelho vivo. É a prova de que, na Igreja, ninguém é estrangeiro. Todos somos chamados a ser casa uns para os outros, mesmo em meio às diferenças.
Segui, portanto, como homem de comunhão.
Sede ponte, quando muitos constroem muros.
Sede escuta, quando muitos apenas falam.
Sede esperança, quando tantos desanimam.
E nunca esqueçais: a Igreja permanece firme não porque o mundo esteja em paz, mas porque Deus continua presente mesmo nas tempestades.
Que Nossa Senhora das Neves, Mãe desta Igreja, vos ensine a guardar no coração as alegrias e as dores do povo, e a permanecer firme, com ternura e coragem.
E que esta Igreja da Paraíba continue sendo sinal de esperança — não porque tudo está resolvido, mas porque Deus caminha com o seu povo, especialmente nos tempos mais difíceis.
Recebei este abraço fraterno, como quem continua a caminhar convosco na fé e na memória viva do Evangelho.
Em Cristo,
Dom José Maria Pires
(em memória e inspiração)
Concebida por Palmarí H. de Lucena