Queridos Poleminadores,
Sim, é a vocês que escrevemos — vocês que acordam com a língua afiada, prontos para transformar qualquer desacordo em barricada, qualquer pergunta em duelo, e qualquer poste torto em motivo de revolução ou exorcismo.
Aqui falam, com o devido e mútuo desconforto, Dom Camilo, servo de Deus com punhos de ferro, e Peppone, servo do povo com bigode de aço.
Discutimos tudo: do céu à terra, da missa campal à reforma agrária. Já quase nos matamos por causa do nome de uma praça, por um sino que não tocou, ou por uma criança que batizamos juntos — embora ela só tivesse um pescoço. Mas entre uma briga e outra, jamais esquecemos que somos do mesmo vilarejo — e que os telhados caem quando se grita demais.
Vocês, porém, parecem viver para o grito. Atiram palavras como quem atira pedras, sem medir o telhado. Confundem fé com fanatismo, e ideologia com idolatria. E no final, acabam sozinhos, cercados de seguidores — mas sem ninguém de fato ao lado.
Hoje, até o pensamento virou código binário — ou é zero ou é um. A digitalização das ideias, feita à base de curtidas e cancelamentos, aboliu a zona cinzenta onde a alma humana costuma repousar. O debate virou algoritmo, e o adversário, um avatar a ser silenciado. Mas nem a fé cabe em 280 caracteres, nem a justiça se faz com cliques.
Se querem mesmo fazer barulho, toquem o sino. Se querem mudar o mundo, plantem batatas. E se querem vencer uma discussão, experimentem calar por um instante e escutar: às vezes, a razão se esconde no silêncio do adversário.
Dom Camilo costuma dizer que Deus perdoa tudo, menos a arrogância dos que gritam em Seu nome. E eu, Peppone, aprendi que até o mais revolucionário dos homens precisa de um pouco de paz para comer o pão que ele mesmo ajudou a sovar.
Portanto, poleminadores, antes de incendiar a próxima assembleia virtual, pensem: será que é mesmo necessário transformar toda conversa em tribunal? Será que é preciso gritar para existir?
Entre a cruz e o martelo, aprendemos a rir. Tentem isso também. Rir não mata. E pode, com sorte, até ressuscitar o bom senso.
Com brigas, mas com respeito,
Dom Camilo e Peppone
(Brescello, mas podia ser qualquer lugar onde dois teimosos ainda se entendem)
Concebida por Palmarí H. de Lucena