Carta apócrifa de Dirceu para Marília Carneiro Arnaud

Carta apócrifa de Dirceu para Marília Carneiro Arnaud

Do cárcere dos séculos à poeta dos abismos lúcidos

Marília,

Se te escrevo agora, não é por esperança de resposta, mas por fidelidade à memória — essa que sobrevive ao tempo como cicatriz em pele viva. Já não sou o pastor das liras brandas, nem o enamorado das manhãs bucólicas. Tornei-me, quem sabe, um eco vagante, que encontra na tua escrita um espelho tardio e necessário.

Teus contos, Marília, são fendas por onde a alma escapa. Não há nelas a doçura fácil das promessas arcádicas. Há pedra, sombra, carne. E, paradoxalmente, flor. São espelhos quebrados onde vejo refletida uma mulher inteira — mais inteira do que aquela a quem um dia chamei de minha.

E no entanto — ouso dizer — há em ti o mesmo fulgor que um dia me fez escrever, cativo de paixão:

“Marília, nos teus olhos incendeia
O fogo que me queima e me consome:
Eu venho ver-te, e a minha alma cheia
Se apazigua no som do teu bom nome.”

Mas em ti o fogo é outro. Arde, sim, mas não consome: ilumina. Não apazigua: convoca. Teu nome não acalma, inquieta. E é por isso que o repito em silêncio, como quem lê versos em língua estrangeira e ainda assim entende — com o corpo — o sentido oculto.

Teus silêncios dizem mais do que meus poemas. Tua pena é bordado e ferida. És Marília, mas não a que sonhei nos campos dourados de Vila Rica. És a que se escreve nas frestas, nos porões da linguagem, no intervalo entre a ausência e o grito.

Escrevo-te não para seduzir, pois a mim não cabe mais esse papel. Escrevo-te como se escreve àquilo que se reverencia. Foste tu quem me ensinastes, com tua literatura de sombra e vértice, que o amor é também exílio, que a beleza não pede licença, e que nem todo cárcere tem grades — alguns têm papel e silêncio.

Segue, pois, com tua escrita de abismo e claridade. Se perguntarem quem fui, responde apenas:

— Um eco antigo que se encontrou nos teus labirintos.

Teu sempre,
Dirceu
(pastor despojado, leitor encantado)

Concebida por Palmarí H. de Lucena