Do Mensalão ao orçamento secreto: a reinvenção do vício com dinheiro público
Brasília, quando os vícios antigos voltam com roupa nova.
Prezados colegas,Há pouco mais de duas décadas, o Brasil se viu diante do escândalo do Mensalão — um esquema de compra de apoio parlamentar por meio de doações ilegais de empresas privadas. Foi um trauma institucional. Houve CPI, julgamento, condenações. A República, ferida, prometeu reformar-se. Houve até quem acreditasse nisso.
Mas o tempo — esse mestre sem memória — nos mostrou o contrário. O que antes era crime escondido hoje é prática generalizada com amparo legal. O que antes escandalizava hoje se banalizou. A mesma lógica de cooptação foi mantida. Apenas mudou a origem do dinheiro: não mais o caixa dois de empreiteiras, mas o próprio Tesouro Nacional.
Chamam de emendas de relator. Preferem o eufemismo “instrumento legítimo de governabilidade”. Mas a engrenagem é a mesma: votos em troca de recursos — só que agora com CNPJ da União.
Mais grave: vemos hoje políticos condenados no Mensalão, por atos dessa mesma natureza, reintegrados ao sistema — não para reformá-lo, mas para explorá-lo ainda mais habilmente. Foram perdoados sem arrependimento, reabilitados sem expiação. Voltaram ao jogo, agora blindados por fundo partidário, tempo de TV e o silêncio confortável de seus pares. Transformaram a punição em plataforma de retorno.
Pergunto: que sinal isso envia às novas gerações? Que o crime compensa, desde que se conheçam os atalhos institucionais?
Como parlamentar, aprendi que ética não é apenas a ausência de crime. É a presença de coerência entre o discurso público e a prática política. É manter-se fiel ao bem comum, mesmo quando o sistema recompensa o oposto.
O Parlamento foi feito para fiscalizar o uso do dinheiro público. Hoje, lamentavelmente, tornou-se instrumento de sua dilapidação eleitoral. Parlamentares deixaram de ser guardiões do equilíbrio fiscal para se tornarem sócios da farra orçamentária. A Constituição virou retórica. O planejamento nacional, um plano de sobrevivência política individual.
A história exigirá de nós uma resposta. E espero que não digam, amanhã, que fomos cúmplices conscientes da degradação da República — que entregamos o futuro em troca de votos e verbas, que traímos a nação com notas de empenho.
Com pesar, mas ainda com esperança,
Cristovam Buarque
Concebida por Palmarí H. de Lucena, inspirada em sua trajetória pública de Critovam Buarque