A vocês que carregam o tempo nas mãos – uns com décadas de estrada, outros iniciando agora seus primeiros passos – escrevo como quem abre um baile onde todas as idades dançam juntas.
Aprendi cedo, ainda menina atrás de um balcão, que a vida só floresce quando a gente não tem medo de começar. E aprendi mais tarde, já vereadora, foliã e líder da terceira idade, que a vida floresce de novo quando a gente não tem medo de recomeçar. Por isso, esta carta é para os dois extremos – e para o enorme espaço de humanidade que existe entre eles.
Aos meus queridos da Melhor Idade, digo o que sempre acreditei: a alegria é o mais sólido dos patrimônios. Foi por isso que criei o Bloco da Melhor Idade: porque ninguém envelhece no carnaval. Nas tardes em que nossos estandartes cruzavam com o das crianças, vi o tempo se dobrar diante da cultura. Ali estavam avós e netos, foliões de ontem e de amanhã, provando que quando o corpo dança, a alma agradece.
Vocês me ensinaram que cultura é medicamento: levanta, anima, devolve dignidade. Fazer teatro com vocês, organizar encontros, montar fantasias improvisadas, ouvir risadas que vinham de longe… isso também era empreender. Empreender afeto, laços, comunidade.
E a vocês, jovens empreendedoras, peço que nunca percam essa ousadia que só as mulheres conhecem: a de transformar dificuldades em degraus, degraus em escadas – e escadas em horizontes. Na Gran Pires, quando instalamos a primeira escada rolante da Paraíba, não era apenas modernidade; era um símbolo do que eu acreditava: que o progresso se constrói onde há coragem.
Mas quero que entendam algo essencial: empreendedorismo que não dialoga com a cultura fica pobre; e cultura que não dialoga com o empreendedorismo perde força. Quando, sem recursos, organizávamos peças, bailes e encontros com idosos, estávamos fazendo aquilo que hoje chamam de empreendedorismo cultural. E fazíamos com uma ferramenta antiga, porém infalível: o coração.
Por isso escrevo a todos vocês – aos que já atravessaram longos carnavais e aos que ainda estão aprendendo a segurar o estandarte – para viverem a vida como um bloco unido.
Idosos, não deixem que lhes digam que o tempo de vocês passou.
Jovens, não deixem que lhes digam que vocês precisam pedir licença para sonhar.
A cidade é grande o bastante para todos: para quem brinca, para quem trabalha, para quem cuida, para quem cria.
E se um dia a dúvida bater – seja por cansaço, por medo, por saudade – lembrem-se do que eu repetia com convicção:
“Quem parar de sonhar, compre um caixão, porque está morto.”
Sonhem, portanto.
Trabalhem, criem, dancem, empreendam.
E, acima de tudo, compartilhem a alegria, porque ela é o único legado que atravessa gerações.
Com carinho de foliã, empresária e empreendedora cultural,
Creuza Pires
Concebida por Palmarí H. de Lucena