Caro Helder,
Escrevo-lhe movido por uma curiosa sensação de familiaridade profissional — e talvez também por uma licença poética que só a literatura permite. Afinal, escrevo-lhe de um lugar onde as antigas redações continuam vivas apenas na memória dos que acreditaram nelas. Digamos que seja uma espécie de varanda da história, de onde jornalistas que já partiram ainda observam, com interesse, o movimento do mundo.
Daqui, onde o barulho das rotativas virou lembrança e as manchetes não envelhecem mais, ainda é possível acompanhar o velho espetáculo da política — com suas repetições, suas ironias e suas eternas promessas de mudança.
Talvez por isso tenha me chamado atenção o seu trabalho.
Embora nossas trajetórias tenham se desenvolvido em geografias diferentes — a minha nas grandes redações do país, a sua acompanhando com atenção crítica a política paraibana — percebo uma afinidade de ofício que ultrapassa distâncias. O jornalismo político, em qualquer lugar, exige o mesmo compromisso: separar discurso de realidade e resistir à sedução das narrativas convenientes.
Ao acompanhar suas colunas, recordo meus próprios anos de redação. Durante décadas escrevi sobre política internacional e brasileira, grande parte delas na Folha de São Paulo, tentando explicar ao leitor os movimentos — às vezes visíveis, às vezes subterrâneos — que moldam governos, crises e decisões históricas. A experiência de trabalhar como correspondente em diferentes países ensinou-me algo simples e universal: o poder sempre prefere a sombra; o jornalismo existe para acender a luz.
Nesse sentido, vejo ecos dessa mesma disposição em sua trajetória. Desde o início de sua carreira, em 1983, na Gazeta do Sertão, em Campina Grande, você escolheu trilhar o caminho exigente do colunismo político. Não é um território confortável. A coluna política exige algo que poucos conseguem equilibrar: informação sólida, interpretação lúcida e coragem intelectual para escrever o que precisa ser dito.
Mas sua trajetória revela uma característica que sempre admirei em jornalistas: a recusa em limitar-se a uma única dimensão intelectual. Além de analista político, você também é escritor, poeta e professor. Publicou Coração de Cedro ainda na década de 1980, ampliou sua produção literária ao longo dos anos e mais recentemente levou sua obra para além das fronteiras brasileiras.
Inventário das pequenas coisas, por exemplo, encontrou leitores no Chile e na Argentina, com tradução para o espanhol e circulação latino-americana. Já seu romance Dom Agápito percorreu um caminho ainda mais amplo, sendo traduzido para inglês, espanhol e italiano — com lançamentos internacionais em cidades como Milão, Florença e Porto.
Soube também que você cogita levar Dom Agápito ao alemão. Confesso que essa notícia me divertiu aqui deste improvável observatório onde escrevo. Há algo muito simbólico quando um livro latino-americano encontra leitores na língua de Goethe: é como se atravessasse não apenas fronteiras geográficas, mas tradições culturais inteiras.
Essa travessia literária revela algo interessante: o jornalista observa o presente imediato, enquanto o escritor investiga os labirintos mais profundos da experiência humana. Quando essas duas vozes convivem no mesmo autor, a escrita ganha densidade.
Também me chama atenção sua atuação acadêmica no Instituto Federal da Paraíba, onde leciona algoritmos e lógica. À primeira vista, pode parecer um contraste curioso — jornalismo político, literatura e tecnologia. Mas, na verdade, há uma convergência silenciosa entre esses campos: todos exigem método, raciocínio e capacidade de interpretar sistemas complexos.
Talvez por isso sua análise política revele algo que considero essencial: estrutura e perspectiva.
Seu reconhecimento institucional, com a eleição para a Academia Paraibana de Letras em 2021, ocupando a cadeira 26 anteriormente pertencente a Juarez Farias, é também um sinal de que sua atuação ultrapassa o jornalismo cotidiano. Ao lado da participação na Academia Cabedelense de Letras e da presidência da Confraria Sol das Letras, percebe-se um esforço constante de estimular a vida cultural e literária.
Essa dimensão cultural sempre me pareceu vital para o jornalismo. Redações que ignoram a literatura, a filosofia ou a história acabam produzindo análises superficiais. O jornalista precisa observar o presente, mas também compreender o tempo.
De onde escrevo agora — um lugar onde as deadlines já não apertam e onde os jornais chegam sem atraso — continuo convencido de algo que aprendi na vida real: o jornalismo raramente muda o mundo sozinho. O que ele pode fazer, e isso já é muito, é iluminar zonas obscuras da vida pública.
Por isso vejo com interesse seu trabalho também no ambiente digital, onde mantém um espaço de análise política, reflexões literárias, relatos de viagem e observações sobre tecnologia. Em tempos de excesso de ruído informativo, iniciativas assim ajudam a preservar algo essencial: o debate público informado.
Talvez seja essa a ironia bonita desta carta: um jornalista que já partiu escrevendo a outro que continua no front da notícia. No fundo, porém, pertencemos à mesma redação imaginária — aquela formada por todos que acreditam que a informação, tratada com rigor e independência, continua sendo um dos pilares da democracia.
Daqui deste improvável posto de observação, sigo torcendo para que o velho ofício continue encontrando bons repórteres, bons cronistas e bons observadores do poder.
Receba o cumprimento cordial de um colega que ainda acredita no jornalismo — mesmo escrevendo, agora, de algum lugar fora das redações.
Com estima e solidariedade de redação,
Clóvis Rossi
Concebida por Palmarí H. de Lucena