Carta Apócrifa de Claude Brown e Carolina Maria de Jesus à Elite Política Brasileira

Carta Apócrifa de Claude Brown e Carolina Maria de Jesus à Elite Política Brasileira

Senhores que habitam os palácios do poder,

Escrevemos de mundos que os senhores preferem esquecer —
um, do Harlem de tijolos gastos e promessas ocas;
outro, do Canindé onde a fome tem nome e endereço.         
Não nos conhecemos em vida, mas nossos escritos se cruzam como farpas no mesmo tecido rasgado da desigualdade.

De onde viemos, crianças aprendem cedo a calar o choro,
porque chorar com fome não adianta.
Escrevemos com o que sobrou: papel usado, caderno roubado, raiva não digerida.
E escrevemos porque o silêncio mata, e a palavra, às vezes, salva.

Lemos, com perplexidade, os vossos discursos sobre meritocracia,
sobre esforço, sobre crescimento econômico.
Mas não vimos o mérito onde o acesso à escola se faz por trilha de barro.
Não vimos o esforço ser recompensado onde o talento morre aos 10 anos, soterrado por uma bala “perdida”.

Do alto de vossos gabinetes, é possível enxergar estatísticas.
Mas não se ouvem vozes.
Não se sente o cheiro do esgoto, nem o medo do despejo, nem o ranger do estômago vazio.
Não se vê a Carolina criança, nem o Claude adolescente.
Só números. Só gráficos. Só abstrações convenientes.

A favela é, ainda hoje, o quarto de despejo da cidade.
E o gueto continua sendo o campo de treinamento para a sobrevivência.
Os filhos da pobreza são criminalizados antes de falarem.
As mães, heroínas invisíveis, continuam trocando o jantar pela esperança.

Senhores, por que ainda insistem em fingir que o povo é o problema?
Por que nos oferecem esmola e chamam isso de política pública?
Por que transformam tragédia em palanque, miséria em paleta eleitoral?

Esta carta não é grito, nem súplica.
É um espelho. Um espelho escrito com caligrafia trêmula e obstinada.
Queremos que leiam. Com olhos desarmados. Com ouvidos desobstruídos.
Porque há mais verdade em uma página do nosso caderno do lixo
do que em muitos de vossos relatórios dourados.

Escrevemos para que saibam: o povo lê.
O povo escreve. O povo aguarda.
E quando esse povo entender a força que tem — não haverá blindagem, nem privilégio, nem mandato que contenha sua palavra.

Com a urgência dos que nunca puderam esperar,
Claude Brown e Carolina Maria de Jesus

Concebida por Palmarí H. de Lucena

Claude Brown (1937–2002) foi um escritor afro-americano conhecido principalmente por seu livro autobiográfico Manchild in the Promised Land (1965), um marco da literatura urbana nos Estados Unidos.

Carolina Maria de Jesus (1914–1977) foi uma escritora, poeta e cronista brasileira, considerada uma das vozes mais potentes e originais da literatura do século XX.