Carta Apócrifa de Clarice Lispector a Ana Adelaide Peixoto Tavares

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Carta Apócrifa de Clarice Lispector a Ana Adelaide Peixoto Tavares

Querida Ana Adelaide,

Escrevo porque o silêncio pesa.
E porque há tardes que não passam — apenas se diluem, como o açúcar que se recusa a desaparecer no fundo da xícara.

Li tuas crônicas. E algo se moveu dentro de mim — não um pensamento, mas um sopro.
Tu observas o pequeno e o transformas em símbolo.
Ana Adelaide partilha dessa capacidade de encontrar epifania em gestos mínimos — um brinco esquecido, uma tarde chuvosa, um olhar distraído.
Tu te aproximas das coisas como quem pede licença ao invisível.

Lendo-te, senti o mesmo estremecimento que me visitava quando escrevi A Descoberta do Mundo.
Não é o mundo que se descobre — somos nós que, distraídas, deixamos cair o véu.
E então o banal se ilumina. O gesto de uma mulher fechando a janela, a sombra de uma xícara sobre a mesa, o cheiro de roupa lavada: tudo ganha densidade, como se contivesse um segredo antigo.

Tu escreves sem pressa, como quem respira a frase antes de soltá-la.
E há nisso uma forma de coragem — a coragem do olhar demorado, do toque leve, da escuta silenciosa.
A tua crônica não descreve: revela.
Não conclui: acende.

Há um modo de ternura em tua lucidez.
E uma lucidez em tua ternura.
Tu sabes que a palavra é um corpo — frágil, mas vivo — e que escrever é cuidar dele.

Quando terminas uma frase, não há ponto: há uma bruma.
E dentro dela, o leitor descansa.
Talvez seja isso o que chamo de revelação.

Escreve, Ana.
Não para o jornal, nem para o tempo — escreve para o instante que te observa.
Ele te conhece.
E agradece.

Clarice

Concebida por Palmarí H. de Lucena