Senhoras e Senhores Congressistas,
Escrevo-lhes do lugar onde a floresta não morre — apenas muda de nome conforme o vento que passa. Falo com a voz de quem aprendeu a ler nos sulcos da terra e a escrever com o facão que abre clareiras de esperança, não feridas de destruição. Não lhes falo como mártir, mas como seringueiro: alguém que aprendeu cedo que o futuro se extrai da árvore em pé, e não da cinza que sobra depois do fogo.
Dizem-me que as leis mudaram. Que se afrouxaram os nós que seguravam as mãos mais apressadas e se tornaram mais frágeis os cadeados que guardavam os rios, as florestas e os povos que dependem deles. Digo-lhes, com a simplicidade que me ensinou o barranco do Acre: toda lei que facilita a derrubada abre caminho para a permanência da perda. Toda norma que chama “progresso” ao desmonte confunde pressa com destino.
Conheci de perto o argumento da “necessidade”. Ele chega sempre bem-vestido de técnica, planilha e promessa. Diz que é preciso crescer, que é inevitável cortar, que o mercado exige. Mas nunca fala dos meninos que bebem água turva, das mulheres que veem a caça desaparecer, dos velhos que já não reconhecem o canto dos pássaros. O crescimento que mata as raízes acaba tropeçando nelas.
Vocês legislam como quem desenha mapas. Cuidado para não apagar os caminhos de quem vive neles. A floresta não é cenário: é casa. E casa não se venda por quilo, nem se remenda depois de incendiada. O Brasil não é um armazém de recursos — é uma nação de ecossistemas. Quando se troca proteção por exceção, abre-se um leilão em que o mais vulnerável sempre perde.
Não lhes peço heroísmo, peço lucidez. Não lhes peço discursos, peço escuta. Ouçam os povos da floresta, os ribeirinhos, os quilombolas, os indígenas, os cientistas que contam a mesma história em línguas diferentes. Não há voto que resista ao clima, nem mandato que sobreviva a um rio morto.
Sei que há pressões, há lobbies, há urgências fabricadas. Mas lembrem-se: a pressa é inimiga da mata e da democracia. A lei ambiental não é obstáculo; é ponte — entre o que somos e o que ainda podemos ser. Não a transformem em atalho para poucos.
Um dia, quando as águas subirem e o calor fizer do descanso um difícil ofício, vocês entenderão que cada artigo suprimido era uma sombra, cada parágrafo enfraquecido era um copo d’água. Ainda há tempo de reescrever. A caneta de vocês pode ser árvore ou fósforo.
Fico por aqui, onde o látex ainda corre como sangue bom. Entre o silêncio das seringas e o rumor dos igarapés, continuo acreditando que este país é grande demais para caber num desmatamento.
Com a esperança de quem não desistiu,
Chico Mendes
(seringueiro, por ofício; brasileiro, por convicção)
Concebida por Palmarí H. de Lucena