Rio de Janeiro, em um dia suspenso no tempo.
Querida Naná,
Há palavras que atravessam os anos como barcos silenciosos. Partem de um tempo e chegam a outro, sem pedir licença à distância. Escrevo-te assim: como quem confia ao vento um pequeno pensamento, na esperança de que ele encontre repouso em outras mãos.
Passei grande parte da vida observando a delicadeza das coisas que desaparecem. O tempo passa sobre os homens, sobre as cidades, sobre as páginas dos livros — e, ainda assim, certas palavras permanecem. Permanecem como pequenas luzes guardadas na memória do mundo.
Talvez por isso eu tenha escrito.
Talvez por isso tenha ensinado.
Talvez por isso também tenha caminhado pelos jornais.
O jornal é, muitas vezes, uma página apressada. Contudo, entre as notícias, se alguém escuta com atenção, percebe também o murmúrio da vida. Basta uma crônica, uma lembrança, uma palavra mais demorada — e o cotidiano, subitamente, revela a sua poesia.
Os jornais, minha cara, são também lugares de memória. Entre as linhas que registram os acontecimentos do dia, escondem-se vozes, gestos e sonhos de uma época inteira.
Soube que caminhas por essas mesmas páginas, cuidando de um jornal antigo e vivo, como é A União. Um jornal que atravessou décadas e continuou guardando histórias da Paraíba como quem recolhe conchas à beira do mar — cada uma trazendo consigo um rumor distante de marés passadas.
Imagino o trabalho silencioso que existe nisso: preservar livros, reunir vozes, abrir espaço para novos autores, proteger a memória de uma terra. Imagino as mãos que organizam páginas e os olhos atentos que procuram, no meio do cotidiano, aquilo que merece permanecer.
Há nisso algo profundamente humano.
Sempre pensei que escrever é uma forma de conversar com o tempo. Cada poema, cada texto, cada livro publicado é um gesto contra o esquecimento — uma tentativa de dizer ao mundo que certas coisas não devem desaparecer.
Talvez seja essa a tarefa de quem trabalha com palavras: guardar aquilo que o mundo insiste em perder.
Entre a poesia e o jornalismo existe um caminho invisível. Ambos procuram compreender o instante que passa. Ambos tentam ouvir aquilo que o ruído da pressa costuma apagar.
Vejo, em tua caminhada, esse mesmo cuidado.
Que continues, portanto, cultivando esse jardim de páginas. Que os jornais permaneçam abertos como janelas. Que os livros encontrem sempre novos leitores. E que a memória de um povo continue sendo escrita com paciência, delicadeza e esperança.
As palavras, quando são sinceras, não pertencem a um tempo só. Elas viajam.
Talvez seja por isso que hoje te escrevo.
Com delicada amizade,
Cecília
Concebida por Palmarí H. de Lucena