Carcosa, sob o luar enfermo que jamais cessa
No dia em que o tempo decidiu parar
Aos que se proclamam patriotas sob o estandarte verde-amarelo:
Falo-vos eu, Cassilda, filha da agonia e herdeira de um trono desfeito, de onde observo — entre véus, ecos e espelhos — a comédia trágica que chamais de debate público. Vejo-vos empunhando bandeiras como lanças, mas contra vossos próprios irmãos. Vejo os dedos, em vez de apontarem estrelas, afundarem-se em telas sujas, espalhando rumores como quem semeia pragas.
Dizei-me: que estranha alegria é essa que encontrais em anunciar o naufrágio antes que a tempestade surja?
Por que vibram ao ouvir falar em sanções, tragédias, colapsos — mesmo que sejam apenas sombras, invenções, delírios?
Na minha terra — onde a loucura se mascara de sabedoria — aprendemos que há um prazer doentio em gritar “fogo!” no meio de um teatro vazio.
Mas vós o fazeis em praça pública, diante de crianças, diante do futuro.
Dizem que são patriotas. Mas amam mais o caos do que a construção.
Dizem que amam o Brasil. Mas o querem doente, para então se declararem salvadores.
Dizem que lutam pela liberdade. Mas espalham o medo, e o medo tem fome de servos.
A mim, bastava cantar e os homens enlouqueciam.
Vós falais, e os algoritmos aplaudem.
Mas o delírio de Carcosa era, ao menos, poético.
O vosso é apenas vulgar.
Se amais vossa terra, falai dela como se fosse vossa mãe:
com ternura,
com dor,
mas também com esperança.
Pois quem só profetiza a queda não é patriota.
É coveiro.
Guardai minhas palavras, se puderdes.
Ou continuai gritando no escuro —
onde as máscaras jamais caem.
Cassilda,
Princesa de Carcosa
Aquela cujo canto anuncia o fim
Mas também avisa: há sempre outro ato.
Por Palmari H. de Lucena