Carta Apócrifa de Aurora Batista: Sobre o Uso Compartilhado de Vulgos entre Margens e Mandatos

Carta Apócrifa de Aurora Batista: Sobre o Uso Compartilhado de Vulgos entre Margens e Mandatos

Brasília, entre a pauta e a paciência,
num daqueles dias úteis que bem poderiam ser feriados.

Senhores representantes,

Fui repórter policial por longos anos. Daquelas que conheciam um criminoso antes pela alcunha do que pelo nome de batismo. Cobri ocorrências em madrugadas de rádio chiando, fiz plantão em porta de IML, entrevistei fugitivos, delegados, mães aflitas e, vez ou outra, um “Sete Dedos” ou um “Gaguinho do Morro” que jurava inocência entre um gole de café e a algema à espreita.

Hoje, afastada das redações por cansaço editorial e tempo acumulado, observo um curioso fenômeno: o vocabulário das ruas foi adotado, com entusiasmo, nos salões mais formais da República. Alcunhas outrora típicas das páginas policiais agora circulam com naturalidade no ambiente parlamentar. E não apenas circulam — elas prosperam.

De “Botafogo” a “Viagra”, de “Maníaco das Siglas” a “Doutor Sem Bengala”, o que antes nascia da oralidade marginal, hoje se incorpora ao marketing político. Alguns são nomes de urna legalizados pela Resolução TSE nº 23.609/2019, respaldados por campanhas modernas, slogans bem lapidados e até presença digital. Em tempos recentes, “Zé do Povo”, “Delegado Porrada” e “Toninho do Diabo” figuraram entre os mais folclóricos — e válidos — registros da Justiça Eleitoral.

É fascinante, do ponto de vista sociológico, observar a transversalidade dos vulgos. O que era batismo no susto, na fuga ou na lenda urbana, tornou-se recurso eleitoral, signo de autenticidade e proximidade. De um lado, o apelido dava manchete em páginas manchadas de sangue; de outro, hoje rende votos e engajamento.

Talvez não se trate de apropriação, mas de convergência. Ainda assim, é legítimo perguntar: quando o apelido atravessa a cidade e chega à tribuna, o que ele carrega consigo? Apenas carisma popular ou também traços do comportamento que lhe deu origem?

Sem recorrer a acusações nem a generalizações, observo que a lógica dos vulgos às vezes se reproduz também nos modos de atuação: frases de efeito, confrontos performáticos, articulações súbitas e, ocasionalmente, embates mais próximos da retórica do subúrbio que da liturgia do cargo. O cenário político, por vezes, parece incorporar o estilo narrativo de um antigo “Plantão da Cidade”.

Não pretendo restringir nomes — muito menos o folclore, que é patrimônio imaterial e espelho de nossa identidade coletiva. Mas permitam-me, como cronista de antigas redações, sugerir uma distinção: nem toda alcunha deve ser fetiche, e nem todo vocativo popular merece virar ferramenta de estratégia.

Fica aqui meu apelo — irônico, porém sincero — para que os vulgos mantenham sua dignidade. Que sigam sendo símbolo de identidade, mas sem se descolar da responsabilidade. E que o colorido das ruas não substitua o compromisso do cargo.

Com o respeito de quem já entrevistou o “Mão de Pilão” com um revólver apontado para o joelho — e ouviu mais verdades do que em muito discurso televisionado,

Aurora Batista
Repórter policial (aposentada por saturação e observação crítica)
Ex-titular da editoria “Crime & Poesia”

Por Palmarí H. de Lucena