Carta apócrifa de Ariano Suassuna a Waldemar J. Solha — retrato de um homem da Renascença

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Carta apócrifa de Ariano Suassuna a Waldemar J. Solha — retrato de um homem da Renascença

Meu caro Solha,

Escrevo-lhe estas linhas com a alegria particular que sempre sinto quando encontro, na paisagem às vezes repetitiva da literatura, um espírito que não se contenta em seguir apenas as trilhas já abertas.

Desde o primeiro contato que tive com Israel Rêmora — ainda quando o manuscrito andava de mão em mão, como um pássaro recém-saído do ninho — percebi que ali havia um escritor movido por uma inquietação pouco comum. Há em sua obra uma recusa saudável de aceitar cercas estreitas para o exercício da imaginação.

Seu romance não se limita a contar uma história. Ele quer também pensar o mundo, interrogá-lo e, às vezes, até enfrentá-lo. E essa ambição — que certos espíritos prudentes talvez julgassem excessiva — é, para mim, justamente o sinal de uma literatura viva.

Com o tempo fui compreendendo melhor aquilo que, desde o início, me chamou a atenção em sua figura intelectual. Você é, meu caro Solha, um desses artistas que lembram certas figuras do Renascimento — homens para quem a arte não era um compartimento fechado, mas um território amplo, onde várias linguagens conviviam como parentes de uma mesma família.

Romancista, poeta, dramaturgo, ator, pintor — em você essas atividades não disputam espaço entre si. Pelo contrário: conversam, como instrumentos diferentes tocando a mesma música.

Lembro também, com certo divertimento, de uma pequena travessura literária que me permiti em A Ilumiara – Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores. Ali resolvi brincar de misturar nomes e inventar parentescos imaginários entre alguns escritores que admiro, como se todos pertencessem a uma mesma linhagem espalhada pelo tempo.

Assim, aqui e ali aparecem autores com sobrenomes ligeiramente modificados. Num desses jogos, até William Shakespeare acabou surgindo com um nome que traz o sobrenome de Solha. Imagino o susto que você levou ao dar com aquilo. Confesso que fiz a brincadeira rindo sozinho, imaginando a reação do amigo.

Foi uma dessas presepadas bem-humoradas que a amizade literária às vezes permite — talvez também como resposta afetuosa à ópera Dulcineia e Trancoso, na qual você teve a generosidade de me colocar como personagem ao lado de Miguel de Cervantes.

Essa multiplicidade que vejo em você não é dispersão; é, ao contrário, sinal de uma unidade interior.

Em sua obra percebo algo que sempre admirei nos verdadeiros criadores: uma imaginação que não separa arte e pensamento. Em seus livros — como também em sua pintura e em seu trabalho de palco — sinto sempre a presença de uma mente interrogativa, interessada tanto na beleza quanto no mistério da existência.

Permita-me acrescentar uma observação que costumo fazer quando falo de você. É difícil acreditar que seja paulista de nascimento, porque em seu espírito há uma assimilação tão profunda da paisagem cultural da Paraíba que costumo brincar dizendo que você é o paulista mais paraibano que já conheci.

Essa fusão curiosa — entre uma formação intelectual ampla e uma absorção verdadeira da experiência nordestina — confere à sua obra uma perspectiva singular.

O sertão, em seus livros, não aparece como simples cenário pitoresco. Surge antes como espaço simbólico, dramático e humano.

Lembro-me, por exemplo, de A Canga, onde aquele objeto rude do trabalho se transforma numa metáfora poderosa da condição humana: o peso que carregamos, a luta contra o destino, a dignidade que insiste em permanecer mesmo quando o mundo parece querer esmagá-la.

Ali o Nordeste deixa de ser apenas paisagem; torna-se reflexão moral — quase tragédia.

Talvez seja justamente essa capacidade de transformar experiência em símbolo que aproxima sua obra das grandes tradições literárias.

Mas, acima de tudo, o que mais me interessa em seu trabalho é essa energia criadora que parece mover todas as suas atividades artísticas. Você escreve como quem pensa, pinta como quem imagina histórias e atua como quem vive a literatura por dentro.

Há em tudo isso uma espécie de circulação contínua da arte — como se cada linguagem alimentasse a outra.

E isso, meu caro, é coisa rara.

Vivemos num tempo em que a especialização excessiva às vezes empobrece o espírito criador. Por isso me alegra encontrar, em você, essa figura que lembra — guardadas as proporções — certos artistas de outros séculos, homens para quem a arte era um território vasto, onde várias formas de expressão podiam conviver sob a mesma chama interior.

Continue, portanto, nesse caminho múltiplo e inquieto.

A literatura brasileira precisa de espíritos que não tenham medo de pensar, de experimentar e de atravessar as fronteiras entre as artes.

No fundo, cada artista verdadeiro é um viajante: alguém que acende pequenas fogueiras de imaginação ao longo do caminho para que outros possam enxergar, na escuridão do mundo, algum sinal de beleza — e talvez também de sentido.

Receba o abraço admirado deste amigo e leitor,

Ariano

Concebida por Palmarí H. de Lucena