Filhos e filhas do verbo encantado,
Escrevo-lhes, em espírito e memória, como quem acende uma vela em sala escura para que se veja não o que é evidente, mas o que permanece em penumbra — o que pulsa entre as palavras, nas frestas da linguagem. Falo como quem vem de Bananeiras, de um Brejo bordado de neblina e encantamento, onde aprendi desde cedo que o mundo se lê melhor com os olhos da alma.
Na travessia entre o Direito e a Literatura, encontrei meu lugar: uma vereda onde o rigor da lei e a liberdade do verbo se entreolham. E foi ali, nesse terreno entre o instituído e o indizível, que conheci Guimarães Rosa — não apenas como leitor, mas como viajante de sua geografia simbólica. Sua obra foi para mim não uma visita, mas uma morada.
Em Travessias Rosianas, não pretendi decifrá-lo. Rosa não se decifra. Procurei antes escutar seus silêncios, seguir o rastro de seus neologismos como quem persegue pegadas na areia antes que o vento as apague. Entendi, ali, que o sertão de Rosa não é chão, mas alma; não é cenário, mas epifania. Seu mundo é feito de travessias — não de chegadas — e suas veredas não conduzem ao destino, mas ao desnudamento.
Na crítica literária, optei pelo olhar que respeita o mistério. A análise não como bisturi, mas como gesto de acolhimento. Busquei ver em cada texto uma oferenda de sentido, não uma equação. Rosa me ensinou a reconhecer no sertão uma metafísica, uma indagação suspensa entre o real e o imenso. Seus personagens falam como quem reza — e sua linguagem é mais próxima da música do que da lógica.
Na sala de aula, encontrei minha forma mais pura de estar no mundo. Ensinar foi meu modo de atravessar sertões e convidar outros a atravessá-los comigo. Não formei discípulos: ajudei a formar caminhantes — leitores capazes de se perder sem desespero, e de se reencontrar com mais perguntas do que respostas.
Fui a primeira mulher a ocupar a presidência da Academia Paraibana de Letras. Não por heroísmo, mas por dever. Abrir espaço é, também, forma de escrever. Ali, levei comigo a voz das mulheres que ainda viriam, a coragem daquelas que não tiveram vez, e o compromisso com a cultura como herança viva.
Aos que hoje leem Rosa — com fascínio ou hesitação — deixo um conselho: leiam com o corpo inteiro. Deixem-se atravessar pelas palavras, como quem entra numa mata sem pressa. Rosa não é para se entender depressa. Ele é para se demorar.
E se alguma vereda vos parecer densa, saibam: é por ali que passa o encantamento.
Com ternura crítica,
com firmeza serena,
com gratidão por cada palavra lida,
Ângela Bezerra de Castro
(por mãos outras, mas com sua verdade)
Concebida por Palmarí H. de Lucena, com gratidão à professora Ângela, que me revelou os caminhos e veredas dos sertões de Guimarães Rosa