Senhores e Senhoras que hoje governam povos livres ou aspiram fazê-lo,
Escrevo-vos não como quem pretende ditar o rumo de vossas nações, mas como um homem que viu seu país arder em guerra fratricida e escolheu, mesmo assim, acreditar na força regeneradora da democracia.
Disse, certa vez, que um governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desaparecerá da Terra. Mas não repitam essas palavras como se fossem um monumento estático. Elas são um chamado à ação contínua. Um lembrete de que a legitimidade de qualquer poder repousa não nos votos que o originaram, mas na fidelidade diária aos que o depositaram em vossas mãos.
Aos senhores e senhoras que governam o Brasil, rogo atenção redobrada: vosso povo é generoso na esperança e persistente em seus esforços, mas não é ingênuo diante de promessas esquecidas. Não banalizem a democracia com artifícios oportunistas, nem apequenem o poder que exercem em nome de interesses passageiros. A pluralidade é vossa riqueza, não vossa ameaça. E o Brasil, com toda a sua beleza sofrida, ainda anseia por governantes que o tratem como pátria — e não como palco.
A liberdade, senhores, não é um favor. É um direito. E quem a nega aos outros não a merece para si mesmo. Guardem isso como um princípio inegociável, especialmente quando vos for tentador usar a lei para restringir, a fé para controlar ou a segurança para silenciar.
Soube que muitos se movem com pressa nas democracias modernas. De minha parte, admito: fui um andarilho lento. Mas nunca andei para trás. Governar não é sobre velocidade, mas sobre direção. Mesmo os passos mais tímidos na estrada da justiça são preferíveis ao galope em direção ao abismo da tirania.
Se o poder chegou até vós, saibam: é no poder, não na dor, que o caráter se revela. A adversidade forma homens; o poder os desnuda. Que vossa grandeza se prove na contenção, não no domínio; na escuta, não no estrondo.
Ouvi dizer que buscais prever o futuro com algoritmos, sondagens e relatórios. Permitam-me sugerir outro método: criá-lo com vossas ações. O amanhã que desejais repousa nas decisões que tomais hoje — e nas que tendes coragem de não tomar.
Há virtude em mudar. O homem que hoje não é mais sábio do que foi ontem, perdeu um dia. Que essa máxima vos livre da vaidade da infalibilidade, mal que tantas repúblicas padecem.
Em tempos confusos, muitos tentarão vestir Deus com vossas cores partidárias. Respeitai a fé de vossos povos, mas lembrai-vos: minha maior preocupação nunca foi se Deus estava do meu lado — e sim se eu estava do lado d’Ele. Justiça, equidade, compaixão: esses são os nomes sob os quais Deus se deixa encontrar.
E se tudo isso vos parecer demasiadamente filosófico para a prática da política, deixo-vos um conselho simples, talvez o mais importante de todos: seja lá o que forem, sejam bons nisso. Bons legisladores. Bons administradores. Bons seres humanos.
Pois no fim, o que permanece não são vossos títulos, vossos monumentos ou vossas narrativas, mas o bem — ou o mal — que fizestes com o poder que vos foi confiado.
Com esperança teimosa e fé no espírito republicano,
Abraham Lincoln
(Concebida por Palmarí H. de Lucena, inspirada em suas palavras e legado moral)