Carta Apócrifa de Abelardo Jurema para seu filho Abelardo

Carta Apócrifa de Abelardo Jurema para seu filho Abelardo

Meu querido filho,

Escrevo-lhe com o coração cheio de orgulho e saudade. Ao longo da vida acompanhei sua caminhada e muitas vezes reconheci em você os valores que procurei transmitir: honestidade, senso de justiça e respeito pelos outros. Quero falar-lhe agora como pai e amigo, recordando nossa história e os laços que sempre nos uniram.

Lembro-me de você menino, atento às histórias que eu contava sobre a vida pública e sobre a importância de fazer o que é certo, mesmo quando o caminho parece mais difícil. Ao ensiná-lo, eu próprio reafirmava esses princípios, porque educar um filho é também renovar as próprias convicções.

A vida pública me trouxe grandes responsabilidades. Quando ocupei cargos de destaque, especialmente no Ministério da Justiça, procurei nunca esquecer que o poder deve ser instrumento de serviço. Guardei comigo uma máxima que sempre me orientou: no poder, sem querer ser mais do que um homem; no exílio, sem aceitar ser um 1964. Você ainda era jovem quando o golpe interrompeu nossa rotina e feriu a democracia. Fui preso, afastado da vida pública e levado ao exílio. Partir foi uma das decisões mais dolorosas da minha vida, pois significava deixar você, sua mãe e nossa terra. Em Lima, no Peru, vivi anos difíceis, sobrevivendo como comerciante e sustentado pela esperança de que o Brasil reencontraria seu caminho.centímetro menos. Nela está resumida a dignidade que procurei preservar.

Essa convicção foi posta à prova em

Nas noites silenciosas daquele exílio pensei muitas vezes em você. Perguntava-me se compreenderia minhas escolhas. Havia, contudo, uma certeza tranquila: preferi perder cargos e conforto a renunciar à honra. Era essa lição que desejava lhe deixar.

Quando finalmente voltei ao Brasil, na década de 1970, o reencontro com a família foi uma das maiores emoções da minha vida. Você já era um jovem adulto, e naquele abraço senti que o tempo e a distância não haviam diminuído nossos laços.

Retomei então minha vida intelectual, escrevendo sobre aqueles tempos difíceis. Você acompanhava meus manuscritos com curiosidade, e logo percebi que herdara não apenas o gosto pelas palavras, mas também o compromisso de usá-las com responsabilidade. Formou-se em Direito, como eu, mas encontrou no jornalismo sua verdadeira vocação.

Vi seu nome surgir nos jornais e consolidar-se na imprensa paraibana. Em seus textos reconheci algo que sempre admirei: a capacidade de unir informação, memória e reflexão. O jornalismo, quando exercido com integridade, é também uma forma de serviço público.

Recordo uma conversa em que você se queixava das dificuldades da profissão. Disse-lhe então que a maior riqueza de um jornalista é sua credibilidade. A imprensa deve ser os olhos e a voz da sociedade. Vi em você a mesma inquietação diante da injustiça e a mesma recusa a atalhos fáceis. Ali percebi que a semente havia florescido.

Existe ainda um legado menos visível, que sempre chamei de salário moral: aquela recompensa que não cabe na calculadora, mas conforta a consciência. Quando alguém reconhece que nosso trabalho foi honesto e útil, esse é o pagamento mais verdadeiro.

Nossa família sempre valorizou essa integridade. Seu avô ensinou-me que deixar um nome limpo é a maior herança possível. Procurei transmitir-lhe esse princípio, e vejo que você o honra em sua vida profissional e pública.

Ao olhar sua trajetória, vejo o menino curioso, o jovem inquieto e o homem íntegro que você se tornou. Entre todas essas fases permanece um fio contínuo: os valores que partilhamos e o afeto que nos sustenta.

Celebrei cada conquista sua com alegria — os reconhecimentos públicos, o título de Cidadão Pessoense, a presença na Academia Paraibana de Letras. Mas nada me orgulha mais do que saber que você se tornou um homem honrado.

Se um dia eu partir, levarei comigo a serenidade de quem sabe que parte de si permanece. No fim das contas, o maior legado de um homem são as pessoas que ajudou a formar — e você, meu filho, é o melhor de todos os meus.

Receba deste pai um abraço cheio de carinho e gratidão. Continue caminhando com firmeza, semeando verdade, justiça e humanidade.

Com todo o meu amor e orgulho,

Seu pai,
Abelardo

Concebida por Palmarí H. de Lucena