Carta Apócrifa da Família Balen à Ex-Prefeita Marta Ramalho Leite, de Bananeiras

Photo by Palmarí H. de Lucena
Carta Apócrifa da Família Balen à Ex-Prefeita Marta Ramalho Leite, de Bananeiras

Vale dos Vinhedos, Rio Grande do Sul
À sombra dos parreirais antigos, num fim de tarde de bruma leve.

Prezada Prefeita Marta Ramalho Leite,

Escrevemos-lhe como quem abre as portas de uma casa antiga, onde o vinho respira memória e as janelas deixam entrar o ar fresco da serra. Somos da Família Balen, e desde os anos 1970 temos aprendido que o turismo nasce devagar, quase tímido, como os primeiros cachos que amadurecem em silêncio. Foi assim que começamos, em pequenas cantinas coloniais, recebendo visitantes com a simplicidade de quem oferece o que tem de mais íntimo: o esforço da terra e o acolhimento do coração.

Por isso, acompanhamos com admiração a transformação de Bananeiras, essa joia da serra paraibana que, sob a sua condução, parece ter reencontrado seu próprio coração. Vemos de longe — mas com o olhar atento dos que conhecem os ciclos da vida rural — que aí floresceu algo raro: uma cidade que voltou a acreditar na própria vocação.

Os relatos que chegam até nós falam de praças iluminadas com o cuidado de quem ajeita uma mesa para receber visitas; de ruas que parecem conversar com a arquitetura antiga; de casarões que respiram história sem exibicionismo; e, sobretudo, de um sentimento novo que envolve quem chega, como se a cidade dissesse num gesto suave: “agora estou pronta para ser vista”.

Em nossos vinhedos, sempre aprendemos que tradição só vive quando há pertencimento. E percebemos, prefeita, que a senhora compreendeu esse segredo. O turismo não nasce de cartões-postais — nasce de uma comunidade que se reencontra consigo mesma.

Bananeiras reviveu suas festas, sustentou suas tradições, reacendeu sua cultura. Há voz nos cafés, luz nos sobrados restaurados, música no vento que desce a serra ao entardecer. E esse renascimento não é apenas técnico; é sensível. É poesia em forma de gestão.

Assim como nossas colheitas dependem do toque delicado do sol e da paciência do tempo, a cidade que a senhora conduziu encontrou o ponto certo entre preservação e futuro. Cresceu sem esmagar a memória. Modernizou-se sem perder o perfume dos antigos engenhos. Tornou-se destino — mas continuou sendo lar.

O que mais nos impressiona, prefeita, é a coerência silenciosa que se espalhou pela cidade. Cada gesto público parece ter sido pensado para que Bananeiras não se tornasse uma vitrine, mas um lugar vivo, onde moradores falam com orgulho crescente e pequenos empreendedores descobrem novas possibilidades, como se as portas dos engenhos, das trilhas e das colinas tivessem sido abertas para a imaginação.

Aqui, entre nossos parreirais, costumamos dizer que algumas paisagens não precisam de discursos — basta caminhar entre elas. Imaginamos que Bananeiras esteja assim: com uma luz própria que não vem dos refletores, mas da soma de pequenas delicadezas, do nevoeiro da manhã, do cheiro de café que sai das casas, do murmúrio da história reencontrada.

E por tudo isso, sentimos o dever de lhe enviar esta carta.
Para dizer que reconhecemos na sua obra o mesmo espírito que moveu nossos pioneiros: a crença de que o turismo rural é uma forma de cuidar — da terra, das pessoas e da memória.

Bananeiras, pelos seus méritos e pela sua condução, transformou-se sem perder a alma. Tornou-se realidade sem deixar de ser sonho.

E, prefeita, permitimo-nos repetir algo que aprendemos ao longo de décadas:

Alguns lugares não se visitam.
Vivem-se.

Com respeito, admiração e um brinde à serra,

Família Balen
Pioneiros do Enoturismo Rural
Vale dos Vinhedos – RS

Concebida por Palmarí H. de Lucena