Carta Apócrifa da Companhia Nacional de Navegação Costeira a Manoel Ferreira Jr., diretor da Agemar

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Carta Apócrifa da Companhia Nacional de Navegação Costeira a Manoel Ferreira Jr., diretor da Agemar

Ilha do Viana, Niterói,
num crepúsculo que o tempo não apaga

Senhor Manoel Ferreira Jr.,

Escrevo-lhe do outro lado do tempo, onde ainda ecoam sirenes longínquas, passos apressados no convés e a vibração metálica dos velhos Itas, meus filhos de aço. Sou a antiga Companhia Nacional de Navegação Costeira, nascida “Lage & Irmãos”, batizada pela ousadia de descendentes de um armador português e amadurecida pelo sal das rotas entre Porto Alegre e Manaus.

É curioso, Manoel, observar o presente a partir da memória. Vejo seus portos, suas operações no Recife e em Suape, seus módulos, seus contêineres, seus aeroportos, sua Agemar — que começou singela, como agência marítima em 1983, tal como nós começamos com quatro pequenos vapores comprados à Meaaw & Cia. As histórias do mar, descubro, repetem seus ciclos: tudo nasce pequeno, mas só permanece quem sabe navegar com disciplina, ordem e respeito ao tempo das marés.

No nosso apogeu — entre as décadas de 1920 e 1950 — chegamos a ter mais de trinta embarcações: os pequenos Itatinga, Itaquatiá, Itaimbé, Itaberá, Itapuca, Itagiba, Itassucé, e tantos outros; os grandes Itaipé, Itanagé, Itaquicé, Itahité, Itapagé. Não eram apenas navios: eram personalidades. O povo os conhecia pelo nome, cantava suas façanhas, punha música na travessia — “Peguei um Ita no Norte e vim pro Rio morar”.

Você, Manoel, conhece os bastidores desses encantos. Sabe que a beleza das rotas se sustenta em rigor. Por isso me alegra ver no senhor o que outrora vi nos comandantes britânicos que nos conduziram até 1920: pontualidade, limpeza, zelo, e a convicção de que o mar respeita quem o respeita. Em suas mãos, a logística deixa de ser mero deslocamento e se torna coreografia entre terra, água e ar.

Leio que hoje o senhor integra conselhos, federações, câmaras, sindicatos — e que sua Agemar se ramifica em oito segmentos, sempre investindo em tecnologia e formação de pessoal. A velha Costeira, que ainda guarda na memória o casco negro e as superestruturas brancas sob o sol, reconhece em sua trajetória um espírito semelhante ao nosso: ampliar possibilidades, conectar distâncias, sustentar o país por dentro de seus portos.

É por isso que lhe escrevo: para dizer que, embora tenhamos sido incorporados ao Lloyd Brasileiro em 1966, embora meus conveses já não vibrem, ainda creio — ao vê-lo navegar — que o Brasil continua produzindo homens capazes de honrar sua orla, seus estuários e seus destinos.

Se um dia a Agemar lançar navios batizados como os antigos Itas, saiba que cada nome despertaria, aqui onde estou, uma alegria antiga. Pois a memória não precisa de casco para flutuar.

Sigo, Manoel, observando seu trabalho, sua coragem empresarial e o compromisso com o Nordeste Export e com o desenvolvimento logístico do país. Continue — como nós fizemos — a costurar o Brasil pelas suas linhas d’água.

Com estima e reconhecimento,

A Companhia Nacional de Navegação Costeira
(que um dia singrou o país de alto a baixo, levando sonhos, gente e histórias na palma do mar)