Aos que vivem às margens do rio,
Escrevo-vos de um tempo que não é o meu — ou talvez de um tempo que nunca deixou de ser, pois a água, como a memória, não conhece repouso. Encontrei-me, certa vez, diante de uma pintura suspensa na parede de um apartamento, oferecida como presente de casamento: superfície imóvel atravessada por um rio que continuava a correr. No passado, na ocasião da celebração, ao redor vozes celebravam, taças se erguiam, e a luz se multiplicava em reflexos artificiais; mas, diante da imagem, tudo se aquietava. Ela não se impunha — infiltrava-se.
A composição abria-se como uma extensão do próprio tempo: faixas horizontais de cor sustentavam a visão, um campo de água espessa e silenciosa ocupava o mundo visível, e nele uma embarcação estreita deslizava, carregando não apenas corpos, mas um modo de existir. As figuras não posavam — persistiam. Eram traços de vida inscritos no fluxo, como se o próprio rio as tivesse pensado. Ao fundo, a cidade erguia-se e, ao mesmo tempo, desfazia-se. Sua torre apontava para o alto, mas sua matéria já pertencia ao ar. Tudo ali era presença em dissolução.
Reconheci o rio — mas não como outrora o conheci.
Em meu tempo, busquei apreendê-lo pela luz, pela medida, pela ordem do olhar. Julguei que descrevê-lo seria, de algum modo, possuí-lo. Hoje, porém, compreendo que o rio resiste à captura. Ele não se deixa fixar — apenas atravessar. E naquela pintura, ele não era objeto: era estado. Não era paisagem: era duração.
A canoa, com sua carga humana, tornava-se então mais do que motivo — era destino em movimento. O gesto do remo não cortava apenas a água, mas o próprio tempo. E aqueles que ali estavam — recolhidos, silenciosos, inteiros em sua própria contenção — não se ofereciam ao olhar como figuras, mas como presenças que recusavam tradução. Havia neles uma dignidade que não se declarava, uma existência que não pedia testemunho.
E foi então que me detive com maior inquietação.
Percebi, com a distância que só o tempo concede, que aquilo que um dia vi como parte da paisagem era, na verdade, a sua razão mais profunda. Eu os reduzi à escala do mundo, quando eram eles que lhe davam sentido. Eu os dispus no espaço, quando eram eles que o habitavam. Minha pintura organizou — mas não compreendeu.
Ali, porém, algo se deslocava.
A luz não revelava — recolhia. A cor não descrevia — envolvia. A cidade não dominava — pairava. E o rio, longe de ser cenário, tornava-se pensamento. Havia, naquela imagem, uma escuta. E nessa escuta, talvez, uma forma tardia de justiça.
A vós, ribeirinhos, que viveis entre a margem e o fluxo, digo: sois a medida invisível desta paisagem. O rio vos sustenta, mas também vos exige; vos conduz, mas também vos prende; vos reflete, mas jamais vos devolve inteiros. Vossa vida é travessia contínua — e, ainda assim, quantas vezes fostes vistos apenas como passagem.
Hoje compreendo — ainda que tarde — que o mundo que busquei fixar sempre esteve em movimento, e que vós, mais do que qualquer forma ou arquitetura, sois sua permanência viva.
Se minhas imagens foram tentativas de permanência, aquela era uma aceitação do fluxo.
Recebei estas palavras como se recebe um reflexo na água: instável, incompleto, mas tocado pela mesma corrente que vos atravessa. E se nelas há ainda algum valor, que não seja o da imagem, mas o do reconhecimento — de que o rio que vos sustenta também vos expõe, que sua beleza tantas vezes celebrada convive com o peso das dificuldades que enfrentais em suas margens.
Que se veja, enfim, não apenas a paisagem, mas a vida que nela insiste.
Que se compreenda que cuidar do rio é também cuidar de vós — de vossas travessias, de vosso sustento, de vossa permanência. Pois um rio ferido não guarda memória: apenas carrega perda.
Se minhas pinturas outrora buscaram eternizar a aparência das coisas, que estas palavras, ainda que tardias, se aproximem mais daquilo que importa: a dignidade de quem vive, resiste e permanece junto às águas.
Do vosso observador, agora não apenas atento, mas solidário,
Frans Post
Concebida por Palmarí H. de Lucena