Senhores Juízes,
Dirijo-me a vós não com o peso de um cargo, mas com o compromisso de uma consciência. Em tempos marcados por incertezas e disputas ruidosas, cabe a vós — mais do que a qualquer outro poder — manter a serenidade onde tantos preferem o tumulto, e a clareza onde outros optam pela confusão deliberada.
A função que exerceis não se mede pelo volume das palavras, mas pela firmeza dos princípios. A toga que envergam é mais que símbolo: é a lembrança diária de que o dever do juiz não é agradar, tampouco servir a interesses passageiros, mas zelar pelo equilíbrio entre o direito e o possível, entre a equidade e a lei.
A imparcialidade não é uma virtude acessória — é o alicerce. Quando ela vacila, o próprio sentido da justiça se desfaz. E sem justiça segura, a confiança da sociedade se dissolve. Não é o barulho da crítica que deve guiar o vosso gesto, mas a certeza de que cada decisão repercute para além das partes envolvidas: ela ecoa na crença coletiva de que viver sob a lei ainda vale a pena.
É verdade que a lentidão corrói. É verdade também que a força, quando se impõe sem critério, se transforma em ameaça. Mas não há dilema ético que dispense vossa vigilância. Julgar é recusar atalhos, é não ceder à pressa nem à pressão. É decidir com base nos fatos, com serenidade diante dos extremos, e com respeito à ordem institucional que vos investe de autoridade.
Nestes tempos, o Poder Judiciário tem sido alvo de ataques, ora ruidosos, ora insidiosos. Há quem deseje desqualificá-lo, não para aperfeiçoá-lo, mas para enfraquecê-lo. Contra essa tentativa, não é necessário erguer barricadas ou alimentar confrontos: basta cumprir, com integridade, o que a função exige. O silêncio digno e a decisão justa falam mais alto do que qualquer provocação.
Permanecei em pé. Não por orgulho, mas por convicção. O povo não espera de seus juízes espetáculo, mas sobriedade. Não espera que ajam conforme as paixões da hora, mas conforme a razão de sempre. Não espera neutralidade diante da injustiça, mas firmeza diante do que é certo — ainda que isso incomode.
A história não costuma guardar memórias de quem cedeu à conveniência. Mas jamais esquece os que honraram, em silêncio, a função que lhes foi confiada.
Com respeito e lucidez,
Ulpiano Redivivo
Concebida e traduzida do silêncio dos tempos por Palmarí H. de Lucena, sob o nome de Ulpiano Redivivo