Carta Apócrifa a um Cidadão Universal, W. J. Solha e o Espírito de Leonardo

Carta Apócrifa a um Cidadão Universal, W. J. Solha e o Espírito de Leonardo

Caro Solha,

Escrevo-lhe como quem encontra, nas prateleiras do tempo, um códice de traços múltiplos: pintura, teatro, romance, cinema, ensaio — e, por que não, profecia. Em cada página, um gesto seu. Em cada gesto, uma centelha do que um dia habitou o peito de Leonardo da Vinci.

Não falo de imitação, mas de afinidade secreta. Vocês dois, separados por oceanos de séculos, foram atravessados pela mesma inquietação: a recusa do ofício único, a desobediência à lógica da especialização mercantil, o impulso vital de atravessar fronteiras entre as linguagens, como quem refaz a topografia do humano com as mãos sujas de barro e imaginação.

Leonardo desenhou hélices, rostos e eclipses. Você construiu catedrais de palavras, armou peças de palco como quem monta um engenho, pintou ideias com o verbo e jamais se rendeu a moldagens. Esculpir e modelar não foram seus ofícios — e você mesmo o afirma com clareza: “nunca esculpi, nunca modelei.” Mas essas ações servem aqui como metáforas de sua presença polifônica na cultura. Disse Da Vinci que “a pintura é uma poesia muda e a poesia, uma pintura que fala.” Você fez disso ofício e insígnia. E fez mais: deu voz à pedra, corpo à filosofia, drama à Paraíba. Tornou-se escultor de narrativas, pintor de ideias, arquiteto de sentidos.

Penso, por exemplo, em Fogo, romance de José Bezerra Filho que virou filme pelas suas mãos e que arde como manifesto — mais do que obra cinematográfica, é labareda de pensamento. Ou em O Salário da Morte, baseado neste mesmo romance, no qual você assumiu a produção como um gigante em território árido. Em A Canga, inspirado em outro livro seu e dirigido por Marcus Vilar, sua voz novamente ecoa — não como cineasta, mas como origem fecunda de inquietações narrativas. São testemunhos de um artista que fez cinema sem mecenas, no peito e na raça. Em um país onde se paga entrada para o circo, mas não para o pensamento, você arcou com o preço da liberdade estética. Custou-lhe horas, silêncio, descrença alheia. Custou-lhe, sobretudo, viver da própria ousadia — e sobreviver a ela.

Em um de seus ensaios, ouvi a risada contida de Tenente Lucena, o homem que fez da cultura uma tropa de elite. Ele o via não como forasteiro, mas como recruta da imaginação. Numa conversa em praça pública — real ou inventada, pouco importa — teria dito, com olhar sapeca: “Esse Solha é da infantaria do verbo: avança sem medo, mas sem nunca usar o verbo como fuzil.” A frase, ainda que não registrada em obras publicadas por terceiros nem pelo próprio Lucena, é estilizada e construída nesta carta como metáfora do respeito mútuo entre dois criadores. Representa o olhar de um defensor da cultura popular sobre um artista polifônico: você, Solha, que empunha a palavra não como arma de ataque, mas como ferramenta de construção.

Ambos foram estrangeiros em sua pátria. Ele, um bastardo florentino num mundo de mecenas e intrigas. Você, um paulistano forasteiro que se fez mais paraibano do que muitos nativos — e por isso mesmo viu, com espanto e lucidez, o que a terra escondia sob o cascalho. Leonardo buscava patronos. Você, Solha, enfrentou a ausência deles como quem ergue um afresco com tinta feita de suor e espanto.

Leonardo acreditava na unidade entre arte e ciência. Você nos ensinou que não há diferença entre quem pinta um quadro e quem escreve um romance. Seu pincel era verbo. Sua pena, cinzel. Seus olhos — lunetas de inventor diante de um país sem projeto. Leonardo teve mecenas e manuscritos; você teve pedra, câmera e papel dobrado à mão.

Ambos viveram de incertezas. Ambos produziram mais do que as estantes podiam suportar. Ambos foram tratados com desconfiança por aqueles que só compreendem o que se mede em prêmios ou cifras. Mas o tempo, esse sim, sabe distinguir o artífice do passageiro. E ao nome de Solha caberá um verbete incompleto — como os de Da Vinci: impossível de fechar num só volume.

Você nos mostrou que o artista total não é aquele que domina todos os campos, mas aquele que nunca se rende ao campo único. A unidade da arte está na alma que insiste, e não na técnica que se repete.

Se Leonardo tivesse vivido em Itabaiana, talvez fosse Solha. Se Solha tivesse nascido em Vinci, talvez pintasse o rosto de Cristo com a paleta da inquietação renascentista.

Mas sorte nossa que você foi Solha. Brasileiro, paraibano por escolha. E por destino — como Leonardo — um homem anterior ao seu tempo.

Assina,
Um admirador que encontrou, em sua obra, o eco das asas que Leonardo um dia tentou construir.

Concebida por Palmarí H. de Lucena, dedicada à memória de seu pai, Tenente Lucena