A que dançou até tombar
Não escrevo para ti, Bia, como quem ainda espera te ver sorrindo entre barracas de feira —
mas como quem deseja, pela palavra, impedir que tua ausência se dissolva no esquecimento.
Foste filha da roça, da feira, da labuta.
Teu corpo cansado conhecia as durezas do dia a dia,
mas mesmo entre sacos de farinha e caixas de tomate, tu dançavas.
E tua dança — torta, sincopada, alegre e exausta —
não era espetáculo: era desabafo. Era sobrevivência.
Não sabias de partituras, mas entendias como poucas
o compasso da alma do povo.
Teus passos desajeitados vinham da essência,
da mulher pobre que dança para não desabar,
que canta para disfarçar a fome,
que sorri com o corpo dolorido de carregar o mundo.
Foste crescendo no coração de uma gente que via em ti
não uma estrela, mas um reflexo.
Trocaste as botas surradas por novas,
e mesmo com um celular na mão e milhares de olhos te seguindo,
não te afastaste do barro, da feira, nem dos músicos que te davam o tom —
com zabumba cansada, triângulo empenado e sanfona sem vaidade.
Ali não havia produção requintada nem filtro de rede social:
havia som de poeira, de chão, de raiz. Havia verdade.
Mas a mesma sociedade que te aplaudiu, te virou o rosto.
Converteram tua espontaneidade em produto,
te venderam sem te ouvir, te exibiram sem te proteger.
E quando tua alegria deu lugar ao medo —
quando anunciaste que estavas sendo ameaçada —
ninguém te estendeu a mão.
Teu corpo caiu, Bia.
E com ele caiu também uma denúncia:
de que este país ainda cava sepulturas rasas para mulheres como tu —
pobres, visíveis demais, incômodas em sua liberdade.
A tua morte não foi acaso.
Foi consequência de um sistema que não te reconhecia como cidadã,
mas apenas como folclore, como distração.
Agora, todos se apressam em te homenagear.
Mas onde estavam quando gritaste por socorro?
Quando teus passos se tornaram erráticos, não pela dança,
mas pela exaustão e pela tristeza?
Tua história, Bia, é o retrato de um Brasil que falha todos os dias com suas filhas.
É denúncia que nem o algoritmo silencia.
É memória que não se deve maquiar com sentimentalismo.
Que tua ausência incomode.
Que tua dança interrompida seja grito, seja pergunta.
Porque para ti, Bia, dançar era mais que arte: era resistência.
Em tua memória, mulher da roça, da feira, do mundo —
que os céus te deem a dignidade
que a terra te negou.
Teu admirador — de um lugar bem distante da feira de Baturité
Concebida por Palmarí H. de Lucena