Senhores,
Sou Émile Zola, e volto da poeira dos séculos não por gosto, mas por necessidade. Minha pena, que outrora se ergueu contra a injustiça cometida contra o capitão Dreyfus, sente-se obrigada a escrever novamente. Pois vejo que, sob outros nomes e em outra terra, as sombras da mentira voltam a se erguer — agora travestidas de memes, de lives, de slogans vazios e de cruzadas contra fantasmas que só existem no desespero de quem perdeu o rumo e precisa de um inimigo para manter-se em pé.
J’accuse — sim, acuso — os senhores de transformarem a política em uma feira de calúnias, onde se vende reputação alheia ao preço vil de uma curtida. Acuso-os de erguerem tribunais nas redes sociais onde não há direito de defesa, apenas linchamentos públicos em nome de um pretenso patriotismo, tão falso quanto os dados das suas postagens patrocinadas.
Acuso-os de ressuscitarem, como ventríloquos de um passado vencido, o espantalho do comunismo para justificar sua sanha persecutória, como se ideias diferentes fossem crimes e como se os crimes reais — corrupção, milícia, destruição ambiental — fossem meras narrativas fabricadas por inimigos ideológicos. Os senhores não temem o comunismo: temem a verdade, a justiça e a história.
Acuso-os de manipular mentes frágeis, de cooptar jovens para a ignorância, de atacar professores, jornalistas e cientistas porque esses ainda ousam pensar. Acuso-os de inverter a lógica: transformar o vilão em vítima e a vítima em ameaça, como fizeram com Dreyfus — judeu, patriota, inocente — apenas por conveniência política.
Acuso-os de assassinar reputações com memes e insinuações, de esconder a própria mediocridade atrás de fúrias fabricadas, de usarem o nome de Deus para espalhar o ódio e a intolerância, de simularem martírio enquanto desfrutam do dinheiro sujo da mentira.
Não venho clamar por vingança — venho clamar por memória. Porque o tempo, senhores, tem seus olhos abertos. E a história, mesmo quando escrita com sangue, sabe distinguir os que resistiram do lado da verdade e os que se ajoelharam diante da infâmia.
Quando os senhores forem lembrados — e serão — não será pelos discursos inflamados ou pelas massas envenenadas, mas pelo estrago que causaram ao pacto civilizatório que nos permite discordar sem destruir, votar sem mentir, viver sem medo.
O que está em jogo não é a vitória de um partido, mas a sobrevivência da verdade como ideia possível. E por ela — pela verdade — escrevo mais uma vez:
J’accuse.
Émile Zola
Paris, 1898 — Brasil, 2025