Cabedelo: uma cidade que conversa com o mar

Cabedelo: uma cidade que conversa com o mar

Cabedelo tem um defeito curioso: acostumou-se demais com as próprias riquezas.

Quem chega pela primeira vez fica impressionado. Quem mora aqui, às vezes, passa diante delas todos os dias sem perceber. É o que acontece quando o extraordinário vira paisagem.

A cidade nasceu entre águas. De um lado, o oceano. Do outro, o rio. No meio, uma faixa de terra que parece ter sido desenhada por alguém de muito bom humor. A natureza resolveu caprichar e, de quebra, ainda entregou um porto estratégico, praias generosas e uma localização que qualquer município do litoral brasileiro aceitaria sem pensar duas vezes.

Talvez por isso Cabedelo tenha desenvolvido uma personalidade própria. Não tem a pressa das metrópoles nem a pretensão dos cartões-postais que vivem tentando provar alguma coisa. A cidade simplesmente existe, como quem sabe o valor que possui e não precisa anunciá-lo a todo instante.

E no centro dessa história permanece a velha Fortaleza de Santa Catarina — ou simplesmente o Forte, como muitos cabedelenses a chamam.

Ali está ela, há séculos, observando embarcações entrarem e saírem, testemunhando mudanças de bandeiras, governos, modas e discursos. Quem olha suas muralhas imagina quantas conversas ela já ouviu sem jamais revelar uma palavra.

Talvez por isso a fortaleza pareça tão tranquila.

Ela já viu tanta coisa acontecer que provavelmente não se impressiona mais com quase nada.

Nem mesmo com o curioso cenário que a cerca.

Poucos lugares conseguem reunir uma construção militar do período colonial e uma verdadeira floresta de tanques de combustíveis na mesma paisagem. O contraste é tão singular que parece obra de um cronista bem-humorado. De um lado, pedras carregadas de história. Do outro, estruturas metálicas apontando para o futuro. Entre ambos, a cidade segue seu caminho sem maiores cerimônias.

Mas seria injusto resumir Cabedelo aos seus contrastes.

Há também o porto, que movimenta riquezas e conecta a Paraíba ao mundo. Há os pescadores que conhecem as águas melhor do que muitos mapas. Há os comerciantes, os trabalhadores, os moradores antigos que contam histórias capazes de atravessar uma tarde inteira de conversa.

Há ainda uma orla que poderia ser uma das mais vibrantes do Nordeste, reunindo cultura, gastronomia, turismo e convivência. Potencial não falta. Talvez esteja apenas esperando a mesma maré favorável que os pescadores aprenderam a reconhecer há muito tempo.

Enquanto isso, a política continua fazendo aquilo que a política mais gosta de fazer: política.

Os grupos se aproximam, se afastam, mudam de posição e reorganizam alianças com uma frequência que faria qualquer observador perder a conta. Em certos momentos, parece uma dança de salão em que ninguém deseja abandonar a pista antes da última música.

O problema não é a dança.

O problema é quando os músicos ficam tão entretidos tocando para si mesmos que esquecem o público que está do lado de fora.

Porque a cidade real continua funcionando.

Continua funcionando quando o pescador sai antes do amanhecer.

Quando a marisqueira retorna do trabalho.

Quando o comerciante abre as portas.

Quando os estudantes atravessam as ruas.

Quando as famílias ocupam a praia no final da tarde.

Cabedelo acontece todos os dias, independentemente dos calendários eleitorais.

E talvez seja exatamente isso que a torna especial.

A cidade não precisa inventar um futuro. Ela já possui os ingredientes necessários. O porto está aqui. A história está aqui. O turismo está aqui. A cultura está aqui. O mar, generosamente, também continua aqui.

Falta apenas que todos olhem para a mesma direção.

Se isso acontecer, a velha fortaleza continuará observando tudo do alto de suas muralhas. Mas quem sabe, entre uma maré e outra, ela finalmente possa concluir que, depois de tantos séculos assistindo à história passar diante dos seus olhos, Cabedelo decidiu escrever um dos seus melhores capítulos.

Palmarí H. de Lucena