Brejo Paraibano — Uma Viagem pela Serra, pelo Tempo e pelas Pessoas

Brejo Paraibano — Uma Viagem pela Serra, pelo Tempo e pelas Pessoas

Toda viagem começa por uma pequena desobediência. Deixamos a estrada habitual, tomamos uma direção que não era necessária e, algum tempo depois, percebemos que já não viajamos apenas para chegar: viajamos para ver o que existe entre a partida e o destino. Foi assim que entrei no Brejo Paraibano, sem a pretensão de conhecê-lo inteiramente, porque há lugares que se tornam menores quando acreditamos tê-los compreendido. O Brejo pedia outra coisa: tempo, atenção e disposição para parar.

Saindo do litoral, a mudança acontece sem anúncio. O azul do mar desaparece aos poucos, o horizonte se fragmenta em elevações, o verde se adensa e o ar ganha uma temperatura mais branda, como se viesse da própria serra. A estrada começa a subir em curvas sucessivas. Uma casa aparece entre árvores; depois, uma pequena propriedade, uma igreja branca, uma árvore solitária no alto de um morro. Não existe uma fronteira precisa entre o litoral e o Brejo. Há apenas aquele momento em que percebemos que o mundo mudou e que, junto com ele, alguma coisa dentro de nós também começa a mudar.

Chega-se a Areia quase sem perceber. A cidade repousa sobre a serra como essas antigas povoações que parecem ter sido construídas em outro compasso, quando as distâncias eram medidas pela marcha dos animais, pela duração das conversas e pelo tempo necessário para uma colheita. As ruas inclinadas, os sobrados, as igrejas, os balcões e as janelas conservam uma escala humana que o tempo, apesar de tudo, ainda não conseguiu apagar.

Caminho sem destino, talvez a maneira mais honesta de entrar numa cidade antiga. O automóvel oferece velocidade e distância; a caminhada devolve os detalhes: uma porta entreaberta, uma parede descascada, uma senhora à janela, o cheiro de café vindo de uma casa, o silêncio breve de uma rua depois que passa uma motocicleta. A cidade começa a existir verdadeiramente quando deixamos de olhá-la como paisagem e passamos a percorrê-la como experiência.

Areia teve importância econômica numa região marcada pelos engenhos, pelo comércio e pela circulação de mercadorias, mas é também a cidade de Pedro Américo, e esse nome parece grande demais para uma cidade tão pequena. O menino que nasceu nesse ambiente serrano tornou-se pintor de batalhas, heróis e episódios históricos, ajudando a construir, em tela, algumas das imagens com que o Brasil aprendeu a representar o próprio passado. Há nisso uma ironia silenciosa: o pintor das grandes cenas nacionais veio de um lugar onde a grandeza se manifesta frequentemente em coisas menores — numa rua molhada depois da chuva, num sobrado, numa janela aberta, na névoa pousada sobre a serra.

Os antigos engenhos aparecem então como uma camada profunda da paisagem. As casas-grandes, os jardins, as árvores antigas e os caminhos entre plantações conservam uma beleza que seria inútil negar. Mas a beleza não absolve a história. Por trás das paredes estão o trabalho, a escravidão, a concentração da terra e as desigualdades que sustentaram durante gerações aquela economia. Uma paisagem pode ser bela sem ser inocente. Talvez seja justamente essa contradição que torne o Brejo tão expressivo: nele, a memória não está confinada aos livros; permanece espalhada pelo chão, pelas casas, pelas encostas e até pelo silêncio das propriedades abandonadas.

De Areia, sigo pela estrada. A paisagem se abre em plantações, pequenos sítios e propriedades espalhadas pelas elevações. De vez em quando, uma venda, uma capela, um agrupamento de casas. Há homens trabalhando, animais junto às cercas, roupas estendidas nos quintais, caminhões carregando produtos. O Brejo passa diante do carro em pequenas cenas, e cada uma parece suficiente para interromper, por um instante, o movimento da viagem.

Bananeiras surge depois com outro ritmo. A estrada parece preparar a chegada: a serra se aproxima, o verde se intensifica e o ar muda. Às vezes, a neblina desce sobre as árvores e os telhados, envolvendo a cidade numa espécie de lembrança. Há cidades que precisam ser vistas; Bananeiras parece pedir para ser sentida.

Chegar a Bananeiras numa manhã fria é quase entrar numa fotografia antiga. As ruas tranquilas, as casas de portas e janelas voltadas para a rua, as fachadas que resistem ao tempo, as igrejas e as praças compõem uma paisagem que parece guardar histórias. Caminho sem pressa. Uma mulher varre a calçada, um menino corre atrás de uma bola, um comerciante coloca uma placa na rua. A cidade antiga e a cidade contemporânea dividem a mesma manhã, sem que uma consiga apagar inteiramente a outra.

Há lugares em que a memória parece morar nas paredes. O antigo Colégio das Freiras é um deles. Sua presença evoca gerações de estudantes, professoras, religiosas, funcionários e famílias que fizeram daquele espaço parte de suas vidas. Diante de uma construção envelhecida, o olhar apressado pode enxergar apenas abandono; quem olha com memória enxerga presença. Ruína não é ausência completa. É aquilo que restou depois que a vida passou.

As praças prolongam essa sensação. São salas abertas onde a cidade se encontra consigo mesma. Há bancos que já ouviram confidências, árvores que testemunharam encontros e moradores que carregam na lembrança uma Bananeiras diferente daquela que vemos hoje. Uma cidade também mora nessas pequenas permanências: uma árvore antiga, uma janela, uma calçada, um sino, uma praça, uma casa que resistiu. Preservar uma cidade histórica não é apenas conservar prédios; é conservar possibilidades de lembrança.

Mas Bananeiras não vive apenas do passado. Novas pessoas chegam, novas casas surgem, restaurantes e pousadas movimentam a cidade, o turismo descobre a serra e os empreendimentos anunciam outra etapa de sua história. O crescimento faz parte da vida, mas traz uma pergunta que não pode ser adiada: como crescer sem perder aquilo que tornou a cidade reconhecível?

Numa conversa sobre o crescimento local, surge a questão da água. Um morador fala das nascentes, das novas construções e dos períodos de estiagem. Enquanto fala, aponta para a serra. A água vem dali; as casas estão ali embaixo. Olho a encosta e penso que uma paisagem pode parecer inesgotável até o instante em que alguém nos mostra onde começa sua fragilidade. A serra, que de longe parece apenas um acidente geográfico, é também reservatório, lavoura, morada e condição de permanência.

Talvez o futuro de Bananeiras esteja justamente nessa conversa entre memória e transformação. Crescer não precisa significar esquecer; modernizar não precisa apagar; receber o novo não precisa expulsar o antigo. Uma cidade pode avançar levando consigo as marcas que lhe deram identidade. O desafio é fazer com que, daqui a algumas décadas, alguém possa caminhar por essas ruas e ainda reconhecer a cidade que tantos aprenderam a amar.

Borborema aparece entre plantações e pequenas propriedades, quase escondida entre as curvas da serra. A estrada chega devagar, acompanhando o relevo, e a cidade surge como parte de uma paisagem em que a agricultura ainda dá o tom. Há plantações de banana, casas espalhadas pelas encostas e aquele movimento discreto das pequenas cidades, em que o cotidiano parece acontecer mais perto dos olhos.

Caminhando por Borborema, percebo que algumas histórias não precisam ser contadas por inteiro para permanecerem presentes. A antiga usina hidrelétrica é uma delas. Hoje, mais do que uma obra de outro tempo, ela parece uma lembrança de quando a chegada da energia representava uma espécie de promessa de futuro. A ferrovia também deixou suas marcas. O túnel da Samambaia e a antiga estação de Manitu pertencem a um tempo em que os trilhos aproximavam lugares e faziam a serra parecer menos distante. Agora, restam os vestígios, como se a paisagem tivesse guardado aquilo que o movimento dos anos deixou para trás.

Mas é a água que muda minha maneira de olhar para Borborema. As cachoeiras de Boa Vista e Roncador lembram que a serra não é apenas relevo: é também nascente, correnteza, mata e vida. Depois de tantos quilômetros percorridos, compreendo que a água talvez seja uma das maneiras mais silenciosas de contar a história do Brejo. Ela atravessa a paisagem sem precisar de monumentos, alimenta a terra e continua seu caminho enquanto as construções, as estradas e as cidades mudam.

No centro, a Igreja Nossa Senhora do Carmo acrescenta outra camada à caminhada. Não preciso saber toda a história de suas paredes para perceber que ali existe uma permanência. Pessoas entram, saem, conversam, passam diante dela. A igreja continua pertencendo à cidade porque a cidade continua passando por ela. Talvez seja assim que o patrimônio sobreviva: não apenas porque permanece de pé, mas porque continua fazendo parte da vida.

Deixo Borborema com a sensação de ter encontrado uma cidade feita de diferentes tempos convivendo na mesma paisagem. A agricultura continua, a água continua correndo, algumas marcas do passado permanecem e a vida segue adiante. Volto à estrada. As montanhas reaparecem à frente e, no retrovisor, a cidade vai ficando para trás. Mas certas paisagens não terminam quando desaparecem de vista. Elas continuam viajando conosco.

De Borborema, a estrada segue para Serraria. A serra se aproxima e o caminho se torna mais estreito. Pequenas propriedades aparecem entre árvores, cercas acompanham a estrada e algumas casas parecem suspensas nas encostas. O movimento diminui. Quando chego à cidade, encontro uma praça tranquila, algumas pessoas conversando e motocicletas estacionadas junto ao meio-fio. Não há espetáculo. Há apenas a vida cotidiana, que em cidades pequenas costuma ser também uma forma discreta de patrimônio.

Serraria tem uma história ligada à ocupação da região, aos antigos engenhos e ao trabalho que moldou a economia local. Na Praça Antônio Bento, o obelisco e uma antiga roda de moinho evocam esse passado; a Matriz do Sagrado Coração de Jesus domina a paisagem, enquanto outros marcos locais lembram personagens e episódios da comunidade. Não é preciso alongar a história para perceber o que importa: ali, como em outras cidades do Brejo, o passado permanece incorporado à vida cotidiana.

Sigo para o Engenho Baixa Verde. A estrada até lá já faz parte da visita. O carro avança devagar entre árvores e trechos de barro. Quando a propriedade aparece, a casa-grande se impõe pela proporção. Há também a capela, o antigo espaço da senzala e o alambique. O conjunto conserva elementos da arquitetura rural do século XIX e está ligado à produção de cachaça.

Paro diante da casa. Primeiro, os olhos procuram as paredes, as portas, a composição da fachada, os sinais de uma arquitetura feita para durar. Depois encontram a senzala. É nesse momento que a visita muda de natureza. A casa-grande pode ser admirada pela arquitetura; a senzala não permite a mesma distância. Ali, a história deixa de ser apenas patrimônio e adquire o peso das vidas submetidas ao trabalho escravizado.

A riqueza daquela propriedade tinha uma origem concreta: terra, produção e trabalho; e parte desse trabalho foi imposto pela violência. Permaneço algum tempo em silêncio. O engenho continua sendo uma bela construção, mas já não é possível olhar para ele somente como construção.

Em Pilões e Pilõezinhos, o caminho parece pedir outro ritmo. As curvas se sucedem, o carro diminui a velocidade e a paisagem acontece mais perto: pequenas propriedades, árvores junto às cercas, casas espalhadas pelas encostas e plantações acompanhando o relevo. Depois da chuva, a luz se rompe entre as nuvens e o verde ganha diferentes tonalidades. Não há uma paisagem monumental. Há uma paisagem vivida, feita de trabalho, natureza e pequenas permanências.

Pilões me recebe com essa combinação silenciosa entre natureza e cotidiano. A cidade não precisa anunciar sua presença; ela se revela aos poucos, nas ruas, nas conversas e no entorno verde que acompanha a vida de quem mora ali. O Brejo, nesse trecho, deixa de ser apenas uma geografia de serras e plantações e passa a ser também uma maneira de viver, na qual a terra continua próxima das pessoas e participa da rotina.

Em Pilõezinhos, a sensação muda. Há uma dimensão de tradição e memória que parece mais próxima da superfície. É uma cidade que convida a escutar: as histórias, os costumes, as relações entre as pessoas e a terra. Algumas cidades se revelam pelos monumentos; outras, pelas vozes de quem vive nelas. Pilõezinhos parece pertencer a essa segunda categoria. O que importa não está apenas naquilo que se vê, mas também no que permanece sendo contado.

Continuo pela estrada e percebo que talvez seja esse o melhor modo de conhecer o Brejo: não procurar em cada cidade uma grande atração, mas perceber aquilo que muda de uma para outra. Em Pilões, a natureza parece falar primeiro. Em Pilõezinhos, a tradição se aproxima e pede escuta. Entre as duas, a estrada completa o que falta, ligando paisagens, pessoas e histórias que, vistas de longe, parecem diferentes, mas pertencem ao mesmo território.

Foi numa dessas curvas, depois da chuva, que vi o pássaro. Primeiro apareceu como uma sombra atravessando a claridade. Pensei num gavião; depois, numa garça perdida sobre a serra. Reduzi a velocidade. O animal surgiu novamente, mais baixo, e então abriu as asas sobre o vale. Só quando passou diante de uma faixa clara do céu percebi as cores e a longa cauda. Era um pavão.

Não fazia muito sentido vê-lo voando daquele modo, alto sobre a estrada, como se tivesse escolhido justamente aquele trecho da serra para atravessar o céu. Durante alguns segundos, acompanhou o movimento do carro, planando de uma encosta para outra. Depois ganhou altura e desapareceu atrás de uma faixa de neblina.

Fiquei olhando para o lugar onde havia sumido. Foi então que me veio à lembrança o Pavão Misterioso, esse engenho fantástico da imaginação popular, capaz de transformar uma ave em máquina de viagem e fazer do céu uma estrada. A lembrança parecia nascer da própria paisagem.

Eu vinha atravessando antigas propriedades, casas, alambiques, capelas e estradas de cana; agora um pavão cruzava a serra como se também ele pertencesse àquele mundo de engenhos e histórias. Por alguns segundos, não soube mais onde terminava o pássaro e começava a lenda. Talvez fosse apenas um animal visto de longe. Talvez a luz, a chuva e a distância tivessem feito o resto. Não senti necessidade de decidir.

Continuei dirigindo devagar e, por alguns quilômetros, tive a impressão de que o pavão permanecia adiante, invisível, conduzindo a estrada.

Guarabira surge depois com outro ritmo. Mais trânsito, mais comércio, mais gente. Caminhões, ônibus, motocicletas e vendedores disputam o espaço. Entro numa loja para comprar água e, quando pergunto pela estrada seguinte, um homem explica o caminho com a segurança de quem já o percorreu centenas de vezes. Em viagens pelo interior, basta perguntar uma coisa para receber três histórias.

Alagoa Grande chega depois, mas sua presença na viagem não precisa ser medida pela quantidade de história contada. Dois nomes bastam para abrir portas diferentes da memória: Jackson do Pandeiro e Margarida Maria Alves. Jackson levou para muito além da Paraíba os ritmos e sons de sua terra; pensar nele é lembrar que uma música pode carregar uma paisagem inteira, desde a rua, a feira e a infância até os palcos. Margarida, por sua vez, está ligada à luta dos trabalhadores rurais e à defesa de direitos numa região marcada pela concentração da terra. Entre esses dois nomes, Alagoa Grande revela duas dimensões de uma mesma paisagem humana: a cultura que se espalha e a resistência que permanece.

É também em Alagoa Grande que se encontra Caiana dos Crioulos, comunidade quilombola situada entre serras e antigos caminhos de cultivo. Para chegar até ela, a estrada parece abandonar por algum tempo o mundo das cidades e entrar numa paisagem em que relevo, agricultura e memória se confundem. As casas aparecem entre o verde, o caminho se estreita e o silêncio ganha espessura. Há lugares em que a paisagem não parece apenas conservar o passado; parece conhecê-lo.

Foi em Caiana que compreendi melhor a força da palavra griô. Na tradição africana, o griô é guardião da memória, contador de histórias, músico e transmissor de conhecimentos entre gerações. Uma fotografia antiga de uma banda de pífanos mostra homens com seus instrumentos, homens que viajaram para longe levando consigo a música da comunidade. Entre eles estava Mestre Firmo Santino. Quando a fotografia volta a ganhar vida através dos filhos, netos e bisnetos daqueles músicos, o passado deixa de ser fotografia e recupera parentesco, rosto e voz. Os homens já não estão ali, mas a música permaneceu.

É uma coisa estranha que acontece nas viagens: às vezes encontramos uma fotografia e temos a impressão de que somos nós que estamos sendo observados por ela. Talvez essa seja uma das funções secretas do griô: impedir que os mortos desapareçam completamente. Fico imaginando os pífanos atravessando Caiana ao entardecer, a música descendo pelas encostas e entrando nas casas. Talvez seja apenas imaginação. Mas no Brejo a imaginação não parece um território separado da realidade.

O Brejo não pede para ser admirado de longe. É preciso entrar em suas cidades, conversar com quem mora nelas, parar diante das casas antigas, ouvir as histórias, aceitar os silêncios. Só então a paisagem começa a revelar aquilo que escondia.

Um homem está parado junto a uma cerca. Cumprimento-o. Ele responde e volta os olhos para o outro lado da estrada. Seguimos em sentidos diferentes. É uma cena mínima, mas muitas histórias do Brejo parecem começar assim: numa pessoa parada à margem de uma estrada.

Depois disso, começo a prestar menos atenção às cidades e mais aos intervalos entre elas. Uma venda pequena com garrafas expostas na porta, uma senhora sentada numa cadeira de plástico, crianças esperando transporte escolar, um agricultor parado diante de uma plantação, uma casa azul isolada no meio do verde. O que numa viagem apressada seria apenas passagem torna-se, para quem observa, uma sucessão de pequenos acontecimentos.

Em certa manhã, paro num pequeno estabelecimento à margem da estrada. Peço café. O proprietário pergunta de onde venho. Quando respondo, quer saber para onde vou. Digo o nome de uma cidade e ele começa a explicar o caminho. Não explica apenas a estrada. Fala da curva perigosa, da ponte, de um trecho ruim, de onde parar para comer. Pego o telefone para anotar. Ele ri. “Não precisa. É só seguir a estrada e perguntar.” Guardo o telefone. Naquele momento, o mapa do Brejo parece caber numa conversa.

No fim da tarde, volto a uma das cidades por onde havia passado. As lojas começam a fechar, as ruas ficam mais silenciosas, a luz se inclina sobre os telhados e algumas janelas se acendem. Na praça, as pessoas continuam conversando. Durante o dia, eu havia visto a cidade como visitante. Agora, com o comércio fechando e os moradores retomando seu ritmo, ela parecia outra: menos monumento, mais casa.

Mais adiante, já na estrada de volta, encontro uma antiga construção tomada pelo mato. Restavam paredes, algumas janelas e uma árvore crescendo junto à antiga entrada, com os galhos avançando sobre a alvenaria. Parei o carro. Não havia ninguém. O silêncio era interrompido apenas pelos pássaros e pelo ruído distante de um motor.

Fiquei olhando aquela ruína durante alguns minutos. Não era mais possível saber com precisão tudo o que havia acontecido ali, mas talvez fosse justamente essa ausência de explicação que lhe desse força. A construção guardava o que restara de um mundo; a árvore, sem qualquer intenção de conservar memória, continuava crescendo sobre ele.

O Brejo continua mudando. As casas novas aparecem ao lado das antigas, restaurantes ocupam imóveis que permaneceram fechados durante anos, os jovens partem para estudar ou trabalhar e alguns retornam. A agricultura muda de mãos e de métodos. As estradas recebem mais carros. O presente não pede licença ao passado; simplesmente avança sobre ele. Algumas coisas são restauradas, outras desaparecem, outras sobrevivem por acaso. Uma cidade não conserva tudo. Conserva aquilo que consegue.

Quando começo a descer a serra, tenho a sensação de que a viagem deveria ter sido mais longa. Sempre fica uma estrada por percorrer, uma história por ouvir, uma pessoa com quem conversar. O litoral reaparece aos poucos. O ar fica mais quente. A vegetação muda. No espelho retrovisor, as serras diminuem até se tornarem uma linha azulada no horizonte.

Ficam algumas imagens: Areia coberta de neblina, uma janela antiga, Bananeiras vista do alto, o Colégio das Freiras, as praças silenciosas, Borborema entre plantações e montanhas, Serraria entre as encostas, a casa-grande e a senzala do Baixa Verde, as curvas de Pilões e Pilõezinhos, o movimento de Guarabira, os pífanos de Caiana, a sombra de uma mangueira onde homens ainda guardam histórias, a memória de Jackson do Pandeiro, o nome de Margarida Maria Alves e aquele pavão atravessando o céu depois da chuva.

Não sei se o vi exatamente como me lembro. Talvez seja esse um dos privilégios das viagens: certas imagens, depois de algum tempo, deixam de pertencer inteiramente ao que aconteceu e passam a pertencer também àquilo que imaginamos.

Na última curva antes da descida, olhei uma vez mais para a serra. Pensei na ruína que havia deixado para trás e na árvore crescendo junto à antiga entrada, avançando pelas paredes como se tivesse encontrado ali uma maneira de morar no tempo.

Pouco antes, um pavão havia atravessado o céu depois da chuva, aberto sobre as montanhas como uma aparição, e desaparecido na neblina. A árvore permanecia presa à terra; o pavão, por alguns instantes, parecera pertencer ao ar. Um guardava a ruína sem saber que guardava. O outro levava consigo alguma coisa que eu não sabia nomear.

Talvez fosse apenas a memória daquela tarde. Talvez fosse a própria serra inventando uma história para quem passava.

O céu escurecia. As primeiras luzes apareciam nas casas e o caminho de volta começava a chamar. No retrovisor, o Brejo diminuía lentamente, mas eu sabia que aquela distância era enganosa.

Há lugares que ficam maiores depois que os deixamos.

A árvore ficou para trás, entre as paredes da ruína. O pavão desapareceu muito antes dela, mas continuou voando dentro da minha memória.

E foi assim que compreendi que talvez a viagem não terminasse na estrada. O Brejo havia ficado em mim, como ficam certas histórias que ninguém sabe ao certo se viveu, ouviu ou sonhou.

Palmarí H. de Lucena