Há coisas que chegam à nossa vida sem pedir licença: a chuva numa tarde de domingo, uma lembrança de infância, a voz de alguém que não vemos há muito tempo. E há as mensagens de WhatsApp, Instagram e Messenger. Estas últimas têm uma peculiaridade que as distingue das demais: quase sempre chegam anunciando a própria importância.
“URGENTE!!!”, “BOMBA!!!”, “VOCÊ PRECISA SABER DISSO!” A mensagem pode trazer letras garrafais, círculos vermelhos, setas misteriosas e, ao final, aquela recomendação solene: “COMPARTILHE ANTES QUE APAGUEM.” É o suspense em sua forma contemporânea. Antigamente, uma carta podia trazer uma notícia inesperada; hoje, ela chega acompanhada de música dramática, indignação instantânea e a expectativa de que o destinatário ajude a levá-la adiante.
Confesso que, diante de certas mensagens, já não sei se recebi uma informação, um convite à militância ou o capítulo mais recente de uma longa série intitulada O País Está Perdido, Mas Eu Tenho a Explicação. A brincadeira é apenas uma forma leve de introduzir um pedido feito com sincera consideração: gostaria de manter minha caixa de mensagens um pouco mais distante do material político-partidário que circula diariamente pelas redes.
Não se trata de rejeitar opiniões diferentes ou de criticar quem compartilha aquilo em que acredita. Muitas dessas mensagens chegam de pessoas que estimo e respeito. É uma escolha pessoal, destinada a preservar um espaço de convivência em que possamos conversar sobre a vida sem que nossas preferências políticas precisem estar sempre à mesa.
Não sou indiferente à vida pública. A política está nas instituições, nas ruas, nos preços, nas escolas, nos hospitais e em tantas decisões que afetam nosso cotidiano. Uma democracia precisa de cidadãos atentos e participativos, livres para formar suas convicções e expressá-las. Justamente por reconhecer essa liberdade, prefiro que ela não transforme cada conversa numa disputa.
As redes sociais fizeram uma coisa curiosa com a política: levaram-na para dentro de casa. Ela aparece no café da manhã, acompanha o almoço de domingo, entra no grupo da família e consegue, com admirável persistência, transformar uma conversa sobre futebol numa discussão sobre os destinos da República. É como se tivéssemos instalado um pequeno palanque no bolso e nos acostumado a carregá-lo para todos os lugares.
Talvez o problema não esteja no palanque, mas na sensação de que precisamos subir nele o tempo inteiro. A democracia não exige que pensemos da mesma maneira; exige, antes, que encontremos maneiras de conviver com aquilo em que divergimos. Um irmão pode votar diferente do outro, dois amigos podem enxergar o mesmo país por janelas distintas e um vizinho pode defender uma ideia que nos parece equivocada sem deixar de ser o vizinho que nos ajuda quando precisamos.
Há algo de profundamente humano nessa possibilidade: uma pessoa nunca cabe inteiramente naquilo que pensa. Suas opiniões são apenas uma parte de sua história; há também seus gestos, suas lembranças, seus afetos e a maneira como trata aqueles que estão à sua volta.
É nesse ponto que a polarização excessiva começa a empobrecer a conversa. Ela simplifica aquilo que a vida torna complexo, substitui a curiosidade pela certeza e transforma divergências em fronteiras. Cada lado encontra seus argumentos, seus personagens e, naturalmente, uma quantidade inesgotável de vídeos para confirmar aquilo que já acreditava.
O resultado é uma curiosa abundância de fala e uma escassez de escuta. Uma mensagem recebe outra, que chama um vídeo, que provoca um comentário, que pede uma réplica. A conversa, talvez iniciada com boa intenção, transforma-se numa pequena batalha. Raramente alguém termina dizendo que mudou de opinião; às vezes, termina apenas com menos vontade de conversar. É um resultado estranho para ferramentas que nasceram com a promessa de nos aproximar.
Talvez daí venha meu receio de uma espécie de distopia política doméstica. Não aquela das imagens clássicas do autoritarismo, com censura e portas fechadas, mas uma forma silenciosa de intolerância em que quem pensa diferente passa a ser visto com desconfiança. Regimes autoritários impõem a uniformidade pela força; a polarização extrema pode produzi-la de maneira mais discreta, quando amizades se afastam, famílias evitam certos assuntos e pessoas preferem o silêncio para não transformar uma conversa em confronto.
Enquanto isso, a vida continua. O preço do café não acompanha nossas discussões, as contas chegam pontualmente e o mundo real continua exigindo que cidades funcionem, escolas ensinem e hospitais atendam. Talvez seja uma boa lembrança para não permitir que o debate político ocupe todos os centímetros da existência.
Por isso, comecei uma pequena experiência pessoal: deixar a política fora de alguns espaços da minha vida. Não quero convencer ninguém a pensar como penso, nem transformar minha caixa de mensagens num plebiscito permanente. Também não quero descobrir em quem alguém vota para decidir se continuo gostando dessa pessoa. Prefiro uma regra simples: pense como quiser; continuemos amigos.
Isso não significa considerar todas as ideias equivalentes. Significa apenas lembrar que podemos discordar de uma proposta sem desqualificar quem a defende, discutir escolhas públicas sem transformar o interlocutor em adversário pessoal e, de vez em quando, simplesmente mudar de assunto.
Há tantas outras coisas esperando por nós fora das trincheiras digitais: uma fotografia de viagem, uma música, um livro, uma lembrança, uma receita, uma história de família, uma boa notícia ou aquela pergunta cada vez mais rara: “Como você está?” É uma pergunta simples, quase antiga, e talvez justamente por isso ainda tenha algum valor.
Há também a poesia, que não resolve os problemas do mundo — o que já seria pedir demais a alguns versos —, mas pode nos devolver uma delicadeza que às vezes perdemos pelo caminho. Talvez baste lembrar que a palavra pode ser ponte, que a diferença pode ter lugar e que ninguém precisa vencer para que possamos conversar; cada um pode guardar seu rumo, sua escolha e sua razão sem transformar uma disputa passageira numa ferida permanente.
É nesse espírito que faço meu pedido. Se possível, deixem minha caixa de mensagens um pouco fora das disputas partidárias, não como quem fecha uma porta, mas como quem reserva uma sala da casa para outros assuntos. Se algum dia quisermos conversar sobre política, que seja numa mesa, com tempo, café e disposição para ouvir. Uma conversa de verdade ainda possui uma vantagem que nenhuma rede social conseguiu reproduzir inteiramente: diante de nós está uma pessoa, e não apenas uma opinião.
Por isso, quando aparecer novamente na tela aquele anúncio solene — “URGENTE!!! BOMBA!!! COMPARTILHE!!!” — talvez valha uma pequena pausa antes de apertar o botão. Não para desqualificar a informação ou julgar quem a enviou, mas para perguntar se ela precisa realmente continuar viajando de uma tela para outra. Às vezes, sim; às vezes, não. E, quando for não, podemos simplesmente deixar a mensagem terminar conosco.
Slogans passam, campanhas passam, governos passam, os vídeos envelhecem e até as grandes “bombas” das redes encontram novas bombas para substituí-las. O que permanece é outra coisa: uma amizade construída ao longo dos anos, uma mesa onde ainda cabem opiniões diferentes, uma família que continua se reunindo, um amigo que ainda telefona, uma conversa que não precisou terminar em vitória. Talvez seja isso que valha a pena proteger.
Não precisamos concordar sobre o destino do país para continuar caminhando juntos pela mesma rua. Podemos preservar nossas convicções sem transformá-las em fronteiras e nossas escolhas sem fazer delas uma medida do valor dos outros. E, se alguma mensagem realmente precisar ser compartilhada, talvez seja justamente esta: a vida é curta demais para transformar toda diferença em distância.
Palmarí H. de Lucena