Bolsa Família: a dignidade que começa na mesa de casa

Bolsa Família: a dignidade que começa na mesa de casa

Basta entrar numa padaria de bairro, num pequeno mercado ou num açougue para perceber como a vida acontece. Alguém compra dois pães, outro pede meio quilo de carne, uma mãe escolhe o leite dos filhos e um aposentado confere as moedas antes de passar pelo caixa. São cenas comuns, que se repetem todos os dias e revelam uma realidade: para muita gente, fazer compras ainda exige contas, escolhas e renúncias.

É nesse cotidiano que se compreende a importância do Bolsa Família, tema de uma declaração do empresário Roberto Santiago. Ao reconhecer os efeitos positivos do programa no Nordeste, ele chamou a atenção para algo que, embora pareça simples, tem grande significado: quando o dinheiro chega às famílias mais pobres, transforma-se em alimentos, movimenta o comércio e ajuda a sustentar milhares de pequenos negócios.

Afinal, os recursos destinados às famílias em situação de vulnerabilidade não ficam parados. Vão para a padaria, o mercadinho da esquina, a feira livre e a farmácia. Chegam ao comerciante que precisa pagar seus funcionários, ao fornecedor que abastece as prateleiras e ao trabalhador que depende das vendas para levar o sustento para casa. É uma corrente que começa na necessidade de uma família e alcança muita gente.

A posição de Roberto Santiago merece registro também por romper com uma visão que, durante muito tempo, tratou a assistência social como simples distribuição de dinheiro, sem considerar seus efeitos sobre a vida das pessoas e a própria atividade comercial. Ao reconhecer que quem precisa de ajuda também consome, trabalha, movimenta negócios e participa da sociedade, o empresário amplia o olhar sobre uma questão frequentemente reduzida a disputas ideológicas.

Mas há outro aspecto de sua trajetória que merece ser destacado: sua visão empresarial e a sensibilidade demonstrada ao conceber e construir o Manaíra Shopping, em João Pessoa. O empreendimento ultrapassou a finalidade tradicional de um centro comercial e se consolidou como um importante espaço de convivência, lazer e encontro entre pessoas de diferentes origens e condições sociais.

É interessante observar como um negócio privado pode assumir uma dimensão que alcança a vida coletiva. Embora tenha finalidade empresarial e seja um espaço de propriedade privada, o shopping tornou-se parte do cotidiano da cidade, recebendo famílias, jovens, trabalhadores e visitantes de diferentes segmentos sociais. Pessoas que talvez não compartilhassem os mesmos ambientes encontram ali oportunidades de convivência, circulação e interação.

Essa concepção revela uma compreensão mais ampla do papel de um empreendimento: gerar resultados financeiros, mas também participar da construção da vida urbana. Transformar um negócio em um espaço de encontro é reconhecer que a atividade empresarial pode produzir efeitos que ultrapassam seus limites comerciais.

Essa visão dialoga com sua manifestação sobre o Bolsa Família. Nos dois casos, está presente a percepção de que o desenvolvimento precisa alcançar as pessoas e fazer sentido em sua vida cotidiana. Seja ao reconhecer a importância de uma política de transferência de renda, seja ao oferecer um espaço de convivência frequentado por diferentes segmentos sociais, o olhar empresarial se amplia quando considera a dimensão humana de suas atividades.

Essa reflexão nos conduz a uma questão maior: qual é o compromisso do empresariado brasileiro com a redução da pobreza e das desigualdades?

Reconhecer a importância do Bolsa Família é um passo. Entretanto, a responsabilidade social das empresas precisa ir além da compreensão dos benefícios que os programas públicos proporcionam ao mercado consumidor. Ela começa dentro das próprias empresas, com empregos dignos, salários justos, respeito aos direitos trabalhistas, oportunidades de crescimento profissional e relações comerciais responsáveis.

Não basta que o empresário perceba que o dinheiro destinado aos mais pobres acaba chegando às lojas e aos shopping centers. É necessário também reconhecer que os trabalhadores que produzem, atendem, limpam, transportam e mantêm esses empreendimentos funcionando precisam participar dos resultados do desenvolvimento que ajudam a construir.

O compromisso empresarial com a sociedade não deve se resumir a doações ocasionais, campanhas publicitárias ou ações assistenciais. Deve fazer parte da própria maneira de conduzir os negócios, com investimentos, formação profissional, inclusão produtiva e atenção às comunidades onde as empresas estão instaladas.

Isso não significa transferir às empresas as responsabilidades do Estado. Cabe ao poder público formular e executar políticas de proteção social, garantir direitos e combater a pobreza. Mas também cabe à iniciativa privada reconhecer que seu papel na sociedade ultrapassa a obtenção de resultados financeiros.

É claro que o Bolsa Família não resolve todos os problemas do país. O Brasil precisa de mais empregos, educação de qualidade, oportunidades e condições para que as pessoas conquistem autonomia financeira. Também é indispensável fiscalizar o programa, combater fraudes e assegurar que os recursos públicos cheguem a quem realmente precisa.

Mas nada disso diminui a importância de uma política que oferece proteção a milhões de brasileiros.

A declaração de Roberto Santiago, portanto, merece ser vista como uma contribuição a um debate que precisa alcançar outros setores do empresariado nacional. Se o programa social ajuda a movimentar o comércio, como ele próprio observa, é razoável perguntar o que as empresas estão fazendo para que o crescimento também se traduza em melhores condições de vida para seus empregados e para a população que as cerca.

No fundo, desenvolvimento não é apenas construir grandes empreendimentos, inaugurar centros comerciais ou ampliar faturamentos. É também permitir que as pessoas tenham condições de frequentar esses espaços, consumir o necessário e viver com um pouco mais de tranquilidade.

Talvez seja essa a imagem mais importante dessa discussão: uma família reunida à mesa, sem luxo, mas com comida suficiente para todos; e, do outro lado, uma sociedade empresarial consciente de que sua prosperidade também depende das condições de vida daqueles que trabalham, produzem e consomem.

Porque a responsabilidade social não termina quando o governo deposita o benefício na conta de uma família. Ela continua no emprego que oferece oportunidades, no salário que permite viver com dignidade e nas decisões empresariais que ajudam a construir um país menos desigual.

Afinal, uma nação verdadeiramente próspera não é aquela em que apenas alguns conseguem chegar longe, mas aquela em que ninguém precisa ficar para trás.

Palmarí H. dr Lucena