Babi Yar no Madison Square Garden

Babi Yar no Madison Square Garden

Houve um tempo em que os poetas enchiam arenas.

Não cafés. Não auditórios universitários. Arenas.

Hoje isso parece improvável. O século transferiu o magnetismo coletivo para os cantores, para os atletas, para os profetas eletrônicos da televisão e das redes. Mas durante um breve intervalo da História, a palavra poética ainda possuía força suficiente para reunir multidões em silêncio.

Yevgeny Yevtushenko foi um dos últimos homens a viver esse fenômeno.

Quando apareceu no Madison Square Garden, em Nova York, no início dos anos 1970, não levava consigo nada além da própria voz, da presença teatral e do peso moral de seus versos. Ainda assim, milhares de pessoas lotaram a arena para ouvi-lo. O fato, por si só, já parecia uma anomalia histórica: um poeta soviético transformado em acontecimento de massa no coração da América.

Mas o centro invisível daquela noite não era o poeta.

Era Babi Yar.

A ravina próxima de Kiev onde, em setembro de 1941, tropas nazistas executaram dezenas de milhares de judeus em apenas dois dias. Um dos grandes massacres do Holocausto. Durante muito tempo, porém, o lugar permaneceu quase sem memória pública, sem monumento digno, sem verdadeira elaboração moral. A terra parecia condenada ao silêncio.

Foi esse silêncio que Yevtushenko ouviu.

E decidiu quebrá-lo.

Quando publicou “Babi Yar”, em 1961, o poema caiu sobre a União Soviética como uma descarga elétrica. Não era apenas uma elegia aos mortos judeus. Era também uma acusação contra o antissemitismo persistente e contra a amnésia histórica cultivada pelo poder. O poeta compreendeu algo essencial: regimes autoritários temem tanto os fatos quanto a memória dos fatos.

O poema começava com uma frase de brutal simplicidade:

“Não há monumentos sobre Babi Yar.”

Talvez toda grande literatura nasça desse encontro entre linguagem simples e verdade intolerável.

Ao recitar esses versos no Madison Square Garden, Yevtushenko fazia mais do que uma leitura pública. Convertia a arena num espaço de consciência histórica. O espetáculo deixava de ser entretenimento para tornar-se testemunho.

É possível imaginar o contraste daquela noite.

Luzes descendo lentamente sobre as arquibancadas.

O rumor metálico da multidão diminuindo.

Nova York respirando Guerra Fria, Vietnã, tensão nuclear, movimentos civis, ansiedade ideológica.

E então um poeta soviético se levanta para falar dos mortos judeus da Ucrânia.

Não havia ali qualquer triunfalismo político. O que emergia era algo mais raro: a percepção de que a tragédia humana ultrapassa fronteiras nacionais e sistemas ideológicos. Diante da morte em massa, os slogans empobrecem.

A poesia, naquele instante, recuperava sua antiga função civilizatória.

Desde Homero, os poetas foram guardiões da memória humana. Antes dos arquivos, antes da imprensa, antes dos historiadores profissionais, eram eles que impediam os mortos de desaparecer completamente. “Babi Yar” pertence a essa tradição profunda: a literatura como resistência ao esquecimento.

Talvez por isso o poema tenha produzido impacto tão duradouro.

Dmitri Shostakovich transformaria os versos na monumental Sinfonia nº 13, ampliando ainda mais sua gravidade moral. Mas a força original já estava contida na palavra nua, pronunciada diante de milhares de pessoas em absoluto silêncio.

Hoje, décadas depois, “Babi Yar” continua inquietante porque o mecanismo espiritual que tornou possível aquele massacre não desapareceu.

Mudam os uniformes.

Mudam as bandeiras.

Mudam as tecnologias da violência.

Permanece, contudo, a antiga disposição humana para reduzir o outro à condição de abstração descartável.

Toda época produz sua própria forma de cegueira moral.

E toda sociedade corre o risco de transformar sofrimento em estatística, vítimas em números, memória em inconveniência política. Quando isso acontece, começa novamente o processo que Yevtushenko denunciou: a erosão gradual da sensibilidade humana.

É por isso que aquela noite no Madison Square Garden conserva algo de simbólico.

Uma multidão reunida para ouvir um poema sobre mortos esquecidos talvez represente uma das imagens mais dignas do século XX. Não porque a poesia possa salvar o mundo — provavelmente não pode —, mas porque ela ainda é capaz de lembrar ao homem aquilo que o poder, a propaganda e a velocidade histórica tentam apagar.

No fim, talvez essa seja a verdadeira lição de Babi Yar.

A barbárie começa quando a memória perde a voz.

Palmarí H. de Lucena