Augusto a Charles — Dois poetas, uma inquietação

Augusto a Charles — Dois poetas, uma inquietação

Seria preciso imaginar uma conversa impossível para aproximar Charles Baudelaire e Augusto dos Anjos. Eles jamais se encontraram, pertencem a épocas e ambientes distintos e escreveram a partir de experiências históricas que não podem ser confundidas. Ainda assim, há entre suas obras uma zona de contato particularmente fecunda: ambos compreenderam que a poesia poderia nascer não apenas da contemplação da beleza, mas também do confronto com aquilo que a desmente, a ameaça ou a corrompe.

Baudelaire encontrou uma das formas decisivas dessa tensão na experiência da modernidade. Em As Flores do Mal, o transitório, o desejo, a multidão, a cidade e a passagem do tempo tornam-se matéria da experiência lírica. Paris não funciona apenas como cenário; participa da sensibilidade de uma poesia que percebe o homem moderno dividido entre a atração pelo mundo e a dificuldade de encontrar nele repouso. A modernidade, para Baudelaire, não se reduz ao que é novo: ela envolve a experiência de viver em um presente instável, em que o efêmero pode conter uma parcela do eterno. É dessa tensão que sua poesia retira parte de sua força.

Em Baudelaire, o tédio, a melancolia e o desencanto encontram no spleen uma forma particular de expressão: não apenas um estado de espírito, mas uma experiência de sufocamento diante da existência e da modernidade. Essa disposição interior se contrapõe ao movimento de elevação associado ao Ideal, criando uma tensão fundamental em As Flores do Mal. O poeta não resolve esse conflito; sua poesia nasce, em grande parte, da permanência entre essas duas forças, entre o desejo de transcendência e a experiência concreta do tempo, da queda e da finitude. A crítica de Walter Benjamin tornou especialmente fecunda essa leitura da oposição entre spleen e Ideal como expressão da experiência moderna.

Augusto dos Anjos parte de outro lugar. Seu livro Eu, publicado em 1912, apresenta uma linguagem que desconcertou seus contemporâneos e continua difícil de acomodar em uma classificação única. Sua poesia incorpora termos científicos, filosóficos e anatômicos, ao lado de recursos e formas provenientes de tradições poéticas anteriores. Por isso, sua obra resiste a ser explicada exclusivamente pelo Parnasianismo, pelo Simbolismo, pelo Cientificismo ou pelo Pré-Modernismo. Há nela elementos dessas tendências, mas também uma voz que os reorganiza de maneira singular.

Essa mistura não é um detalhe exterior de sua poesia. O vocabulário científico participa da maneira pela qual Augusto enfrenta a condição humana. A morte, a doença, a decomposição e a transformação da matéria aparecem repetidamente em sua obra, mas não constituem simplesmente um inventário do macabro. O corpo torna-se uma forma de pensar a existência. Ao insistir naquilo que se desfaz, o poeta confronta a expectativa de permanência que costuma acompanhar as imagens tradicionais da vida e da beleza.

Sua relação com a ciência, entretanto, é mais complexa do que uma adesão simples ao cientificismo. A linguagem científica é incorporada ao poema, mas pode também ser tensionada e interrogada pela própria poesia. Estudos sobre Augusto dos Anjos destacam justamente essa posição intermediária: ao mobilizar o vocabulário e os debates científicos da Primeira República, sua obra não apenas reproduz o cientificismo de seu tempo, mas também pode submetê-lo a uma reflexão crítica.

É nesse ponto que a aproximação com Baudelaire se torna possível, embora nunca completa. Os dois introduzem na poesia experiências que uma tradição idealizante poderia considerar pouco nobres: o sofrimento, a decadência, o tédio, a doença e a morte. Mas os caminhos são diferentes. Baudelaire trabalha sobretudo com a tensão entre o Ideal e a experiência moderna; Augusto desloca essa inquietação para a materialidade do corpo, fazendo da carne, da doença e da decomposição elementos de uma investigação poética sobre a condição humana.

Seria, portanto, um erro chamar Augusto simplesmente de um Baudelaire brasileiro. A comparação se torna mais interessante quando preserva a diferença. Baudelaire está profundamente ligado à experiência urbana e espiritual da modernidade europeia; Augusto constrói, no Brasil do início do século XX, uma voz de extraordinária singularidade, na qual convivem tradição formal, imaginário científico, reflexão filosófica e uma imagética frequentemente perturbadora.

Baudelaire, por sua vez, também não pode ser reduzido ao poeta da decadência. Sua importância está na transformação da própria experiência do belo. O transitório, o artificial, o urbano, o desejo e aquilo que perturba passam a participar de uma poética que não abandona o Ideal, mas o coloca em confronto permanente com o real. A beleza, em sua obra, não aparece necessariamente como algo puro e estável; pode surgir da própria tensão entre permanência e mudança, elevação e queda. A crítica literária reconhece nessa contradição um dos centros de sua poética moderna.

Augusto leva essa problemática para outra região da experiência. Em sua poesia, a matéria não é apenas o cenário da existência: é sua condição. O corpo nasce, envelhece, adoece e morre; a consciência, entretanto, permanece capaz de perceber esse processo e transformá-lo em linguagem. Daí uma das tensões fundamentais de sua obra: quanto mais concreta e material parece ser a realidade descrita, mais profunda se torna a pergunta sobre o sentido de existir.

É nessa pergunta que Baudelaire e Augusto podem conversar.

Não porque tenham o mesmo pensamento, nem porque tenham escrito a partir da mesma tradição, mas porque ambos perceberam que a poesia poderia enfrentar aquilo que a sensibilidade costuma afastar. Baudelaire encontrou na experiência moderna uma beleza inseparável do desencanto. Augusto encontrou na matéria e na finitude uma linguagem para aquilo que a consciência dificilmente aceita sem resistência.

A aproximação entre eles, portanto, não está numa suposta identidade de pessimismo nem numa simples obsessão pela morte. Está na ampliação do território da poesia. Ambos demonstraram, por caminhos distintos, que o poema pode acolher a contradição, a instabilidade, o sofrimento e a consciência da finitude sem abandonar a busca pela forma e pela beleza.

Talvez seja essa a verdadeira ponte entre Paris e a Paraíba. Não uma influência que precise ser afirmada sem prova, nem uma identidade que apague as diferenças, mas uma afinidade construída pela literatura. Baudelaire transformou a experiência do transitório e do desencanto em uma das fontes da poesia moderna. Augusto dos Anjos, em outro contexto histórico e cultural, fez da matéria, da doença, da morte e da consciência da finitude elementos de uma linguagem poética absolutamente particular.

Dois poetas, portanto, não exatamente um mesmo sentimento, mas uma mesma disposição para não recuar diante daquilo que inquieta. Em Baudelaire, a tensão entre o Ideal e o spleen revela uma experiência moderna marcada pelo desencanto e pelo desejo de transcendência. Em Augusto, a matéria e a decomposição tornam visível a condição finita do homem. Nenhum dos dois oferece uma saída confortável. Sua grandeza está em não afastar do poema aquilo que nos perturba e em descobrir, na própria linguagem, uma maneira de permanecer diante disso.

É por isso que ainda conversam, embora separados por um oceano, por uma língua e por uma história. Não porque tenham dito a mesma coisa, mas porque souberam transformar aquilo que nos perturba em matéria de poesia — e demonstrar que, às vezes, é justamente diante daquilo que preferimos não olhar que a literatura encontra uma de suas formas mais profundas de conhecimento.

Palmarí H. de Lucena