A divisão entre sunitas e xiitas costuma ser apontada como chave explicativa das tensões no Oriente Médio. A realidade, contudo, é mais complexa. A cisão remonta ao século VII, quando, após a morte do profeta Maomé, surgiu a disputa sobre a sucessão. Para os sunitas, a liderança da comunidade poderia ser escolhida entre os mais aptos. Para os xiitas, deveria permanecer na linhagem de Ali ibn Abi Talib, primo e genro do Profeta. O que começou como controvérsia política transformou-se, ao longo dos séculos, em identidade religiosa, tradição jurídica e, em determinadas circunstâncias, instrumento de mobilização coletiva.
Hoje, os xiitas representam cerca de 10% a 15% dos muçulmanos do mundo. Estão concentrados principalmente no Irã e no Iraque, além de comunidades relevantes no Líbano, Bahrein e Iêmen. O sunismo, majoritário, predomina em grande parte do mundo islâmico, incluindo países como Arábia Saudita, Egito e Turquia. Essa distribuição demográfica ajuda a compreender rivalidades regionais, mas não as explica por completo. As disputas contemporâneas refletem também interesses estratégicos, rivalidades históricas, recursos energéticos e competição por influência política.
A comparação entre Arábia Saudita e Irã revela dois modelos distintos de relação entre religião e poder. Na Arábia Saudita, a autoridade política permanece concentrada na monarquia, cuja legitimidade repousa em uma antiga aliança com o establishment religioso sunita. O pacto histórico entre a dinastia Al Saud e o movimento associado a Muhammad ibn Abd al-Wahhab consolidou uma estrutura em que o clero oferece respaldo moral ao Estado, enquanto a monarquia protege e financia as instituições religiosas.
No Irã, a Revolução de 1979 produziu arranjo diferente. Inspirado na doutrina do chamado “governo do jurista”, o sistema político combina instituições republicanas com tutela clerical. O líder supremo ocupa posição central no Estado e exerce influência sobre as principais decisões estratégicas do país. Nesse modelo, a autoridade religiosa não apenas legitima o poder político, mas participa diretamente de sua condução.
Essa diferença institucional ajuda a compreender por que certos líderes religiosos xiitas possuem projeção política regional significativa. No universo xiita, algumas autoridades espirituais acumulam prestígio social, influência política e capacidade de mobilização que ultrapassa fronteiras nacionais. Suas orientações podem repercutir em movimentos políticos, milícias e comunidades religiosas espalhadas por diferentes países.
Quando uma figura desse porte é assassinada, o impacto raramente se limita ao plano individual. A morte de líderes religiosos pode desencadear reações que ultrapassam o âmbito local e afetam o equilíbrio regional. Isso ocorre, em parte, porque o imaginário histórico do xiismo atribui grande importância à memória do martírio. O episódio de Karbala, ocorrido no século VII e central para essa tradição, permanece como símbolo de sacrifício e resistência.
Nesse contexto simbólico, a morte violenta de uma liderança pode ser reinterpretada como martírio e convertida em narrativa mobilizadora. O processo tende a reforçar solidariedades entre comunidades xiitas e, em determinadas circunstâncias, alimentar ciclos de radicalização. Em uma região marcada por equilíbrios delicados, o resultado pode ser o agravamento de tensões já existentes.
O risco, contudo, não é apenas simbólico. Muitos desses líderes mantêm vínculos com redes políticas e militares distribuídas por vários países. Sua eliminação pode provocar respostas indiretas contra adversários regionais ou potências externas, ampliando o alcance do conflito e multiplicando seus efeitos.
A questão torna-se ainda mais sensível quando se considera o histórico das operações clandestinas durante a Guerra Fria. O assassinato de Patrice Lumumba, em 1961, no recém-independente Congo, tornou-se símbolo das controvérsias envolvendo intervenções secretas contra líderes políticos considerados inconvenientes no tabuleiro internacional. Investigações posteriores do Congresso dos Estados Unidos revelaram que agências de inteligência haviam discutido ou planejado ações contra diversos líderes estrangeiros.
A repercussão dessas investigações levou o governo americano a adotar, nos anos 1970, regras formais proibindo assassinatos políticos no exterior. Ordens executivas estabeleceram que agentes do governo não poderiam participar ou conspirar para eliminar líderes estrangeiros. Ainda assim, a distinção entre assassinato político e ação militar permanece objeto de debate jurídico e diplomático, especialmente quando operações são justificadas como autodefesa ou combate a organizações hostis.
O ponto central, portanto, não é apenas religioso. É estrutural. Em uma região onde religião, política e segurança permanecem profundamente entrelaçadas, o assassinato de lideranças religiosas ou políticas pode funcionar como detonador de crises mais amplas.
Por isso, tais episódios raramente são eventos isolados. No Oriente Médio, marcado por rivalidades acumuladas e equilíbrios frágeis, eles operam como faíscas capazes de incendiar tensões latentes e alterar rapidamente o delicado equilíbrio regional.
Por Palmarí H. de Lucena