Asas sobre o Rio Sanhauá

Photo by Palmarí H. de Lucena
Asas sobre o Rio Sanhauá

“Bip… bip… bip…”

O som metálico atravessava o silêncio das madrugadas como um sinal vindo de outro mundo. Colávamos o ouvido ao pequeno rádio transistor, tentando capturar, entre chiados e interferências atmosféricas, o pulso remoto do Sputnik — o primeiro satélite artificial a orbitar a Terra. Do lado de fora, os olhos percorriam o céu ainda pálido na esperança infantil de surpreender uma luz em movimento atravessando a vastidão. O objeto soviético era invisível para quase todos nós, mas sua presença alterava profundamente a imaginação humana. Pela primeira vez, algo construído pelo homem escapava à gravidade terrestre e circulava livremente sobre continentes e oceanos.

O mundo ingressava numa nova era sob o signo simultâneo do fascínio e do temor. A Guerra Fria deixava de ser apenas uma disputa ideológica para transformar-se numa competição tecnológica de consequências imprevisíveis. A supremacia inicial soviética inquietava o Ocidente. Cientistas alemães, alguns oriundos das engrenagens bélicas do Terceiro Reich, reapareciam agora como engenheiros do futuro, redesenhando foguetes capazes de levar homens além da atmosfera terrestre. O imaginário popular, alimentado durante décadas por revistas ilustradas e heróis de ficção científica, começava a confundir fantasia e realidade. Flash Gordon deixava de pertencer inteiramente ao reino da invenção.

Para nossa geração, a corrida espacial prolongava o encantamento provocado pelas narrativas heroicas dos pioneiros da aviação. Crescemos ouvindo histórias de homens que enfrentavam oceanos em aeronaves frágeis, estruturas de metal e lona submetidas a tempestades, correntes imprevisíveis e falhas mecânicas constantes. Muitos desapareceram sem deixar vestígios, engolidos pelo mar ou pelas montanhas ocultas sob nuvens espessas. Havia nesses aviadores algo dos antigos navegadores portugueses: a mesma obstinação diante do desconhecido, a mesma convivência íntima com o risco.

A travessia do Atlântico Sul consolidou a rota Dakar–Natal como passagem preferencial. Não porque fosse segura, mas porque representava o percurso menos improvável. Navegava-se com recursos rudimentares: sextantes, bússolas instáveis, cálculos aproximados de vento e combustível. Evitava-se, sempre que possível, a região do Cabo Bojador — o antigo “Mar da Escuridão” dos cronistas marítimos. Naquele trecho em que a África parece dobrar-se sobre si mesma, ventos violentos arremessavam o oceano contra recifes e bancos de areia, levantando densas cortinas de vapor salino que obscureciam a visão mesmo em grandes altitudes. Durante séculos, marinheiros desapareceram ali entre tempestades, correntes e superstições. Fernando Pessoa condensaria esse imaginário de medo e transcendência em versos definitivos: “Quem quer passar além do Bojador / Tem que passar além da dor.”

Entre as lembranças mais vívidas de nossa infância estavam as histórias narradas por nossa mãe sobre a passagem, pela Paraíba, do hidroavião brasileiro JAHU. O nome, pronunciado lentamente, possuía uma sonoridade quase mítica. A aeronave realizara a primeira travessia aérea do Atlântico Sul sem escalas, partindo da cidade da Praia, na ilha de Santiago, em Cabo Verde. Ao recordar o episódio, nossa mãe recuperava o espanto da menina de onze anos que fora um dia. Sua memória preservava detalhes mínimos: a claridade daquela manhã, o rumor crescente da multidão, os olhos voltados para o céu sobre o Rio Sanhauá.

Na manhã de 5 de junho de 1927, os sinos da Igreja da Conceição romperam a rotina da cidade baixa. Rapidamente espalhou-se a notícia de que o JAHU aproximava-se da costa paraibana. Um ponto escuro surgiu distante no azul intenso do céu, desaparecendo de tempos em tempos atrás de nuvens dispersas que pareciam prolongar deliberadamente a expectativa coletiva. Nos edifícios públicos agitavam-se bandeiras brasileiras. Modinhas patrióticas eram cantadas improvisadamente nas calçadas. Havia versos, aplausos, lágrimas discretas. O país buscava símbolos de modernidade e afirmação nacional; aqueles aviadores encarnavam, ainda que por instantes, a possibilidade de um Brasil audacioso e cosmopolita.

O JAHU atravessou o céu da cidade em poucos minutos, seguindo rumo ao Recife. Logo depois, uma transmissão radiofônica anunciou que a aeronave amerissaria nas águas do Capibaribe.

Às margens do rio, uma multidão aguardava em silêncio quase litúrgico. E por um breve instante — raro e luminoso — o Nordeste pareceu ocupar o centro do mundo.

Por Palmarí H. de Lucena