As viagens de Thélio e uma lembrança de Gulliver

As viagens de Thélio e uma lembrança de Gulliver

Gulliver saiu de casa e encontrou gigantes, homens minúsculos e povos cujos costumes não cabiam nas regras da Inglaterra. Thélio Queiroz Farias não precisa de ilhas imaginárias. Em É caminhando que se faz o caminho, basta-lhe chegar a uma cidade desconhecida e esperar que ela revele aquilo que nenhum roteiro consegue antecipar.

Hoje o viajante chega prevenido. O telefone mostra a rota até o hotel, o restaurante foi escolhido antes da fome e muitas das paisagens já foram vistas em fotografias. Ainda assim, alguma coisa escapa ao planejamento. A mala demora na esteira, o táxi toma uma avenida inesperada, começa a chover quando a previsão anunciava céu aberto ou o café recomendado está fechado. É nesse momento que a cidade começa a responder por conta própria.

Thélio parece atento justamente a esses pequenos acontecimentos. Uma mulher atravessa a rua carregando sacolas e falando ao telefone. Um homem espera sozinho numa estação. No fim da tarde, as mesas de um café se enchem e, mais tarde, alguém começa a empilhar as cadeiras e a lavar o chão. Os monumentos permanecem onde sempre estiveram, mas o que muda é a luz sobre eles, a fila diante da porta ou a criança que se cansa antes dos pais.

Depois de alguns dias, a estátua pode desaparecer da memória. A criança, não.

É assim que certos lugares retornam. Não necessariamente pelo nome do hotel ou pelo endereço do restaurante, mas pela padaria onde o café era servido em xícaras pequenas, pela escada que levava à plataforma errada ou pelo garçom que tentou explicar o cardápio com as mãos. Thélio parece recolher esses detalhes e devolvê-los ao leitor sem lhes retirar a simplicidade.

Em É caminhando que se faz o caminho, as cidades não aparecem como fotografias penduradas numa parede. Estão ocupadas. Há vendedores abrindo portas, estudantes atravessando ruas, garçons recolhendo copos e velhos sentados em bancos. Essa presença humana impede que o lugar se transforme em simples cartão-postal e dá às viagens de Thélio uma dimensão mais próxima e concreta.

Chegar a uma cidade desconhecida também traz seus pequenos constrangimentos. Pede-se uma coisa e recebe-se outra. Entra-se na fila errada. Desce-se numa estação antes da hora. Um gesto parece significar alguma coisa e, depois, descobrimos que não significava. Durante alguns dias, até as ações mais simples exigem atenção.

É nesse ponto que Gulliver se aproxima discretamente de Thélio. Não pelos gigantes ou pelas terras improváveis, mas pela experiência de entrar num mundo cujas regras ainda não conhecemos. Primeiro observamos. Depois tentamos compreender. Por fim, descobrimos que entendíamos menos do que imaginávamos.

Thélio não parece ter pressa de resolver esse estranhamento. Deixa que a cidade conserve suas partes obscuras. Depois da partida, a memória faz sua própria seleção. Esquece o percurso exato, mas guarda uma janela. Perde o nome de uma praça, mas conserva o cheiro de chuva numa rua. Anos mais tarde, basta uma fotografia para trazer de volta o cansaço nos pés, o casaco inadequado, uma conversa interrompida ou o café tomado depressa antes de continuar.

É assim que as viagens de Thélio permanecem depois da leitura: não como uma lista de destinos, mas como cenas que sobrevivem ao próprio percurso. Quando o livro termina, fica na memória a imagem de uma janela acesa numa cidade distante — pequena, silenciosa e suficiente para que ainda queiramos saber o que existe do outro lado.

Palmarí H. de Lucena