As professoras que ficaram na minha memória

As professoras que ficaram na minha memória

Há pessoas que o tempo não leva embora. Elas mudam de lugar dentro da nossa memória. Primeiro são uma voz, um gesto, uma sala de aula; depois se tornam um nome que reaparece em um livro, numa fotografia ou numa conversa. Foi assim que voltei às professoras que atravessaram minha formação no Lyceu Paraibano.

Naquele tempo, eu não pensava na escola como matéria de memória. Havia aulas, provas, livros, cadernos e a pressa própria dos estudantes. Só mais tarde compreendi que uma formação não é feita apenas do que está escrito no currículo. Ela também se constrói na maneira como alguém explica uma ideia, exige um trabalho melhor, recomenda uma leitura ou nos faz perceber que o conhecimento pode ser maior do que a sala em que estamos.

Entre as mulheres que hoje reconheço nesse percurso estão Eudésia Vieira, Olivina Olívia Carneiro da Cunha, Daura Santiago Rangel e Argentina Pereira Gomes. Algumas estiveram diretamente diante de mim em sala de aula. Outras chegaram por uma combinação mais delicada de memória familiar e leitura. O que as reúne, porém, não é apenas terem sido professoras. É terem ajudado a ampliar, cada uma a seu modo, o espaço da mulher na educação e na cultura paraibanas.

Eudésia Vieira ocupa um lugar especial porque sua presença chega a mim por duas gerações. Não guardo a certeza de ter sido seu aluno no Lyceu Paraibano, embora ela tenha sido professora de História da instituição. Minha mãe, sim, foi sua aluna. Eu a conheci também através de seu livro de História. Assim, a professora chegou à minha formação por uma via indireta, mas não menos real: minha mãe recebeu sua aula; eu recebi suas páginas.

Há uma espécie de continuidade nisso. O professor imagina que está ensinando a uma turma, quando às vezes ensina também a pessoas que ainda nem chegaram àquela sala. Eudésia atravessou uma geração da minha família sem saber. Hoje, quando penso nisso, sua figura parece menos a de uma personagem distante e mais a de alguém que continuou ensinando depois que a aula terminou.

A biografia de Eudésia torna essa lembrança ainda mais expressiva. Professora de História, escritora, jornalista, historiadora, poetisa e médica, ela teve uma atuação intelectual que ultrapassou os limites que seu tempo costumava reservar às mulheres. Durante a Segunda Guerra Mundial, estava a bordo do Afonso Pena quando o navio foi torpedeado na costa brasileira. Sobreviveu e depois registrou a experiência em O Torpedeamento do Afonso Pena. A professora que ensinava a história tornou-se também testemunha dela, e encontrou na escrita uma forma de preservar o que havia vivido.

Olivina Olívia Carneiro da Cunha pertence a outra região dessa memória: a da palavra. Professora de Português, poeta e escritora, publicou Pérolas Esparsas, Migalhas de Inspiração, Paisagem da Minha Terra e Barão do Abiahy, além de colaborar em jornais e revistas. Hoje percebo que sua atividade literária não era um desvio do magistério. Era sua continuação por outros meios. A professora ensinava a linguagem; a escritora mostrava o que a linguagem podia fazer.

Lembro também sua elegância, não apenas como aparência, mas como forma de presença. Há professores que entram na memória pelo que disseram; outros, pela maneira como ocupavam uma sala. Olivina pertencia às duas categorias. Sua relação com a cultura dava à aula uma dimensão que ultrapassava a matéria ensinada.

Daura Santiago Rangel representa, nessa lembrança, a autoridade intelectual. Professora de Matemática, dedicou sua carreira ao ensino e chegou a ser a primeira mulher a dirigir o Lyceu Paraibano, além de exercer a direção do Instituto de Educação da Paraíba. Hoje, esse fato pode parecer apenas uma informação biográfica. Para o seu tempo, era também uma mudança de cenário: uma mulher ocupando um lugar de comando em uma instituição tradicional.

O estudante talvez não compreenda imediatamente o significado de uma diretora. Eu também não compreendia. Hoje percebo que a presença de Daura ensinava algo que não estava no quadro-negro. Competência e autoridade não tinham sexo. Uma mulher podia ensinar Matemática, dirigir uma instituição e ser reconhecida por seu trabalho sem precisar pedir licença à época em que vivia. A obra Daura Santiago Rangel: Uma Educadora, ao reunir lembranças de colegas, alunos e familiares, ajuda a devolver espessura humana a essa trajetória.

Argentina Pereira Gomes revela outra face do mesmo movimento: a renovação do ensino. Nascida em 1916, de origem interiorana e pobre, encontrou na Escola Normal, em João Pessoa, uma oportunidade de formação que mudaria sua vida. Tornou-se normalista e professora de Língua Portuguesa e ensinou no Grupo Escolar Epitácio Pessoa, na Escola Normal, no Lyceu Paraibano e na Escola Nossa Senhora das Neves.

Sua importância está também no modo como pensava a sala de aula. Na década de 1930, aproximou-se das ideias de Pestalozzi e Froebel e, posteriormente, da Escola Nova. Em vez de aceitar apenas a pedagogia tradicional, procurou métodos mais ativos, capazes de envolver o estudante. Escreveu artigos para a Revista do Ensino, fazendo circular essas ideias entre outros educadores. Argentina não apenas ensinava: refletia sobre o ensino e compartilhava o que aprendia.

Vistas em conjunto, essas quatro mulheres formam uma espécie de mapa. Eudésia amplia a figura da mulher intelectual; Olivina aproxima escola e literatura; Daura ocupa um espaço de liderança institucional; Argentina participa da renovação pedagógica. São caminhos diferentes para uma mesma direção: a educação como forma de ampliar possibilidades.

É provável que, enquanto estudante, eu não percebesse nada disso. A escola costuma esconder a história de quem ensina. O aluno vê a professora no presente; só muito depois descobre o passado que havia por trás daquela presença. É uma das curiosidades do magistério: quem está diante de uma turma pode carregar uma vida inteira que não cabe em uma aula de cinquenta minutos.

Talvez por isso a história da educação precise olhar também para as pessoas que ficaram fora do centro da fotografia. Uma cultura não é feita somente pelos nomes que aparecem nos lugares de maior visibilidade. Ela é preparada, muitas vezes, por quem ensina a ler, a escrever, a calcular, a perguntar. Antes do escritor existe alguém que apresentou o livro; antes do intelectual, alguém que alimentou a curiosidade; antes do profissional, alguém que ensinou método e disciplina.

Há ainda uma dimensão feminina nessa história que não deveria ser tratada como nota de rodapé. Essas professoras trabalharam em um período em que a participação das mulheres na vida pública, intelectual e cultural encontrava limites muito mais estreitos. Sua própria presença ensinava uma possibilidade. Uma menina que visse uma mulher escritora poderia imaginar-se escritora. Uma aluna de Matemática poderia perceber que aquele território também lhe pertencia. Uma jovem que visse uma mulher dirigindo uma instituição poderia imaginar outra forma de futuro.

É por isso que gosto de pensar nelas não como monumentos, mas como presenças. Monumentos ficam imóveis; professores continuam se movendo dentro de nós. Uma frase reaparece anos depois. Um livro volta à estante. Uma lembrança de sala de aula ganha um significado que não tinha quando aconteceu. A educação trabalha assim: quase sempre em silêncio, quase sempre sem saber exatamente onde sua influência irá chegar.

No meu caso, essa lembrança é também uma história de família. Minha mãe foi aluna de Eudésia; eu estudei História em seu livro. Algumas das outras professoras conheci no percurso escolar. Quando retorno ao Lyceu pela memória, portanto, não vejo somente uma escola. Vejo uma rede de mulheres que participou da formação de estudantes e, por extensão, da formação intelectual e cultural de seu tempo.

Hoje, palavras como inovação pedagógica, protagonismo feminino e participação cultural fazem parte do vocabulário educacional. Mas muitas das práticas e atitudes que essas expressões procuram nomear já estavam sendo experimentadas por mulheres como Argentina, ou realizadas pela própria presença de mulheres como Daura, Olivina e Eudésia. Elas não precisavam conhecer a linguagem do futuro para abrir caminhos para ele.

Talvez essa seja a homenagem mais justa. Não transformar suas vidas em estátuas nem reduzir suas trajetórias a uma coleção de feitos, mas reconhecer a permanência de seu trabalho. Elas ensinaram matérias, certamente. Mas ensinaram também que o conhecimento não deveria ter fronteiras impostas pelo gênero, pela origem social ou pelas convenções do seu tempo.

Quando penso no Lyceu Paraibano, volto àquele estudante que ainda não sabia o que aquelas aulas significariam muitos anos depois. Agora sei que parte da formação de uma pessoa é feita por encontros cuja importância só conseguimos medir quando já passaram. As professoras ficam. Às vezes ficam na lembrança; às vezes, num livro; às vezes, na profissão ou na maneira de pensar de um antigo aluno. E, quando isso acontece, a aula não terminou.

Palmarí H. de Lucena